December 15, 2017

 

Graças aos saudosos relatos do meu Avô, cresci, como muitos outros, com a Lenda de Eusébio, o “Pantera Negra”. Desses relatos, guardo na memória as referências ao seu inigualável pontapé, à exibição histórica perante a Coreia de Norte, aos duelos particulares travados com Damas, por exemplo.

 

 

Mas guardo também um traço especial que distinguia a figura de Eusébio: a sua assombrosa humildade. A humildade que ficou para sempre gravada na forma como se dirigia, respeitosamente, ao capitão do Benfica (imortalizada na expressão “o Senhor Coluna”), ou no modo como confortou Lev Yashin, após lhe marcar um golo de penalty no Mundial de 1966.

 

Ora, tal como a geração do meu avô, que, durante anos a fio, teve o privilégio de acompanhar, ao vivo e a cores, o “fenómeno Eusébio”, também eu pertenço a uma geração privilegiada: aquela que viu nascer, crescer e explodir outro fenómeno sem paralelo na história do futebol português e mundial.

Talvez por força da recente conquista da sua quinta Bola de Ouro, dei comigo a pensar se conseguiria, um dia, transmitir aos meus netos aquilo que Cristiano Ronaldo representou para todos aqueles que o viram jogar, da mesma forma como o meu avô partilhou comigo o legado de Eusébio.

 

Vou falar-lhes, claro, dos seus «tomahawks». Da sua quase inacreditável capacidade de impulsão. Da exibição mágica e do “hat-trick” na vitória sobre a Suécia que nos valeu o acesso ao Mundial 2014.

Um lugar de destaque merecerá também a forma como, um dia, celebrou um golo decisivo num jogo, também ele decisivo, contra o Barcelona, provocando as bancadas de Camp Nou com um expressivo: “Calma, eu estou aqui !”.

 

 

No entanto, e como a imortalidade do legado não vive apenas dos golos, dos troféus e dos dados estatísticos, mas também do “exemplo” que fica e que inspira, parece-me que a melhor forma de (tentar) exprimir aquilo que Ronaldo representou passará por destacar a característica que está por detrás dos registos estratosféricos, aquela que subjaz ao seu sucesso e que melhor explica a sua evolução…

 

Falo, claro, da sua inacreditável capacidade de superação, especialmente visível nos momentos mais adversos, quando os outros não acreditavam (ou não acreditavam tanto) em si, quando o contexto não lhe era favorável, ou simplesmente quando achámos que Ronaldo já havia atingido o auge das suas potencialidades…

No meu caso, reconheço hoje que essa capacidade de superação me surpreendeu, pelo menos, em três ocasiões diferentes.

 

A primeira delas ocorreu logo no início da sua carreira, em 2002, quando menosprezei o seu talento face ao de Quaresma.

De facto, ― e eu bem sei que é um “sacrilégio” assumir isto ― pertenço àquele (muito) reduzido universo de pessoas que reconhecia em Quaresma um potencial superior ao de Ronaldo, pelo menos numa fase inicial.

No momento em que despontaram, a comparação entre os dois era inevitável: ambos eram extremos, talentosos, formados no Sporting, lançados pelo mesmo treinador (Boloni) e pertencentes à mesma geração.

Ora, Quaresma revela, aos 17 anos, um talento que eu nunca tinha visto em nenhum miúdo daquela idade, juntando um repertório “mágico” de fintas a uma velocidade que, diga-se, acabou por ir perdendo, pouco a pouco.

Numa palavra: Quaresma tinha mais “magia” nas botas. Pelo menos, era assim que eu pensava.

 

No entanto, enquanto Quaresma nunca confirmou as minhas expectativas, Ronaldo superou-as largamente. O trajeto de um e de outro demonstra-o sem dúvidas.

Ronaldo nunca perdeu as qualidades que já lhe eram apontadas desde miúdo. Pelo contrário: potenciou-as e desenvolveu outras. Só isso explica a sua tremenda evolução do plano físico e os registos estratosféricos que alcançou em termos de golos.

 

O segundo momento em que a capacidade de superação de Ronaldo arrasou por terra as minhas projeções deu-se a partir de 2012, ou seja, depois de Messi conquistar a sua quarta Bola de Ouro consecutiva.

Nesse momento, em que o “score” em termos de Bolas de Ouro conquistadas era de 4 ― 1 favorável ao argentino, pensei, como tanta gente, que esse “fosso” se tornara inultrapassável. Mais do que isso: pensei que esse “fosso” seria progressivamente agravado, desde logo porque Messi jogava numa equipa com mais qualidade, era mais jovem, etc…

Uma altura houve, aliás, em que toda a gente assumia pacificamente que “o grande azar de Cristiano Ronaldo é jogar na mesma altura de Messi”…

Neste período, arrisco dizer que só mesmo Ronaldo acreditaria que seria possível inverter esse ciclo e destronar Messi.

De facto, só alguém com uma tremenda força interior ― a mesma que o acompanhou quando, aos 11 anos, se despediu da família no aeroporto do Funchal para ir viver no Centro de Estágio do Sporting, num dos quartos debaixo das bancadas do Estádio de Alvalade ― não se deixaria sucumbir perante um cenário tão adverso.

O resto, como se sabe, é história: graças a desempenhos individuais magníficos (69 golos marcados em 2013), mas também à recuperação da hegemonia do Real Madrid na Europa (3 ligas do campeões conquistadas entre 2014 e 2017), Ronaldo conseguiu aquilo que parecia impossível: igualar Messi na liderança com cinco troféus de Melhor do Mundo.

 

 

Finalmente, o terceiro momento em que esta capacidade de superação ultrapassou, por completo, as minhas expectativas, aconteceu mais recentemente, em 10 de Julho de 2016, quando ergueu a Taça relativa ao Campeonato Europeu de Futebol.

 

 

Na verdade, depois de ver Portugal ser derrotado, em casa, frente à Grécia na final do Euro de 2004 e, mais tarde, cair aos pés da França na meia-final do Mundial 2006, mentalizei-me que a Seleção Nacional tinha perdido definitivamente a oportunidade histórica, única e irrepetível de conquistar o seu primeiro grande título internacional.

Em mais nenhuma ocasião Portugal voltaria a reunir um elenco com a qualidade destas equipas, que combinavam o “último fôlego” da geração de ouro, de Figo e Rui Costa, e a “espinha dorsal” do Porto campeão europeu e mundial, de Deco, Maniche e Costinha, com o talento emergente de CR7…

 

Mais uma vez, enganei-me. E ainda bem.

Aliás, é curioso verificar como, no Europeu de 2016, Ronaldo não foi “apenas” o jogador mais valioso da Seleção Portuguesa, ou o autor dos golos decisivos. Foi também o líder aglutinador que tantas vezes faltou a Portugal no passado. Aquele que, nos momentos decisivos, devolve a confiança quando esta começa a faltar, como as palavras de incentivo dirigidas a Moutinho, no momento dos penalties com a Polónia, tão bem refletem: “Anda bater. Anda bater. Anda. Tu bates bem. Se perdermos, que se fod@“.

 

No momento em que escrevo estas linhas, muitos se interrogam sobre se estamos, finalmente, a assistir ao princípio do fim de Ronaldo.

Afinal, CR7 está a caminho dos 33 anos e o Real Madrid ocupa um pouco auspicioso terceiro lugar no campeonato, a 11 pontos do Barcelona.

 

Porém, e como se há coisa a que Ronaldo nos tem vindo a habituar é aos impossíveis, eu não apostaria muito nisso…

 

 

Vasco Rocha

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