December 7, 2019

 

Nenhum adepto de um clube deveria ter de passar pelo que vou passar hoje às 17:30, a hora em que se disputa a final da edição deste ano do trofeu mais antigo do desporto-rei, a FA Cup.

 

De um lado o campeão indiscutível e temível Chelsea e do outro o meu Arsenal [hesitei em escrever o nome com maiúsculas].

 

O Arsenal fez a pior época a que já tive o (des)prazer de assistir. Ficou num pouco honroso [para a história do clube] quinto lugar e falhou a qualificação para a Liga dos Campeões. Chelsea, Tottenham, Manchester City e Liverpool estarão lá, por via da classificação no campeonato. Manchester United estará lá por ter ganho a Liga Europa e o Arsenal… bem o Arsenal ao menos não será eliminado pelo Bayern nos oitavos, e isso já trará alguma frescura e novidade.

 

Esta classificação é apenas o culminar, o ponto mais baixo de um clube que está numa espiral descendente desde 2007, e que nada fez para a inverter. O nome do principal responsável por esta catástrofe é conhecido de todos, Arsene Wenger, e é apenas graças a este senhor que tenho a minha crise existencial. Passo a explicar.

 

Se há clube peculiar na forma como é gerido é o Arsenal. Não foi comprado por milionários que o administram como se estivessem a jogar um qualquer jogo de computador, privilegia a saúde financeira [dos accionistas] em detrimento da saúde competitiva [do plantel e adeptos], tem tectos salariais e orçamentais rígidos que cumpre na íntegra, muito para além do que as regras do fair-play financeiro da UEFA exigem, e leva isso a um extremo. Extremo esse que nos trouxe até onde estamos hoje. Um clube milionário, mas sem ambição.

 

Arsene Wenger é talvez o único treinador no mundo [considerando apenas os melhores] que teria aceite ver as suas principais estrelas partirem sem que o clube fizesse um esforço sério para as segurar, e ainda assim, lidar com a pressão de ter de obter os mesmo resultados das eras em que tinha talento de primeira qualidade às suas ordens.

 

O problema é que a sua teimosia e fidelidade passaram de virtude a vício. A última vez que o Arsenal foi campeão foi em 2004. A Premier League mudou radicalmente desde essa altura e o Arsenal, no geral, e o seu treinador, em particular, ficaram parados no tempo. E foram ultrapassados por todos. Absolutamente todos.

 

Depois do que aconteceu o ano passado [O Leicester sagrou-se campeão inglês] já nem vale a desculpa “não ganhamos porque não temos o orçamento dos nossos rivais”, uma vez que o orçamento do Leicester é muito inferior ao Arsenal, e ainda assim Ranieri conseguiu operar um verdadeiro milagre, numa época em que todos os grandes da Premier claudicarem. Aquela TINHA de ser a época do Arsenal. Mas não foi. E é óbvio porque não foi. O sistema está gasto e mais que visto, a equipa já nem pratica o futebol espetáculo que atraia a maior parte dos adeptos, mesmo quando não trazia resultados práticos e os jogadores estão desmotivados, aliás, o Arsenal já não consegue atrair nomes sonantes do futebol [Jamie Vardy recusou transferir-se para o clube no verão passado] e os poucos que ainda tem desesperam por sair dali [vai pela sombra Alexis, eu nem te censuro como fiz no passado com Van Persie, Clichy, Sagna, Fabregas entre outros].

 

Se uma equipa não tem presente e não se almeja que tenha futuro quem raio pode querer jogar lá? Desconfiem de quem quiser…

 

Outra das peculiaridades do Arsenal prende-se com o facto, inédito, creio eu, de a extensão do contrato do seu treinador depender apenas… do próprio treinador. Parece mentira, não parece? Pois, mas não é. A renovação de contrato de Arsene Wenger por mais dois anos, depende apenas da vontade [ou cara de pau, conforme preferirem] do treinador francês.

 

Ou seja, se amanha o Arsenal ganhar a Taça ao Chelsea, Arsene Wenger tem a justificação perfeita para dizer que foi uma época com sucesso, porque conquistou um trofeu, dizer que a equipa vai construir com base nesse sucesso e prolongar o seu próprio contrato por mais dois anos. Dois anos que serão em tudo iguais aos últimos treze.

 

Começa a ser claro o meu drama? Por um lado é querer que o meu clube ganhe, como quero sempre, por outro é perceber que uma vitória do meu clube, numa competição de segunda água como a FA Cup, vai prolongar o estado de agonia, pelo menos, por mais dois anos.

 

Como posso eu “naturalmente” torcer contra o Arsenal? E se o Arsenal ganhar como posso eu festejar em consciência, sabendo que significa apenas o prolongar no tempo de uma situação insustentável?

 

Provavelmente só na altura do jogo saberei como reagir a este misto de emoções, sabendo de antemão que, quem quer que ganhe, eu perco.

 

Pedro Filipe

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