December 15, 2017

 

Eu, como #BenfiquistaDaCidadeDoPorto, gostava muito de ter sido campeã no Bessa. Vá-se lá saber porquê… 😉

 

Tal como em 2005, adorava ter voltado a viver aqueles momento finais do jogo no Bessa (com o Luisão a perguntar às bancadas quanto tempo faltava, se o jogo do FCP tinha terminado) e os momentos após o jogo: as lágrimas de uma fome de 11 anos terminada, a descida da Avenida da Boavista atrás da camioneta do campeão, a viagem até um aeroporto lotado de gente que chorava, que ria, que perdia telemóveis e se marimbava para isso (até hoje o meu melhor amigo não chora a perda desse telemóvel…. Vá-se lá saber porquê 😉 ).

 

Esperançada que o FC Porto empatasse na Madeira e achando que não ganhávamos em Rio Ave (não tanto pelas “malas”, mas pelo excelente futebol que o meu querido Rio Ave tem vindo a praticar esta época), tratei de garantir bilhete para Rio Ave e para o Bessa. Quando, em Vila do Conde, termina o jogo e vi que estávamos bem lançados para o tão ansiado tetra lembrei: não tenho bilhete para a Luz! Oh caramba… e agora? Agora toca de fazer umas chamadas. Lá me garantiram entrada no jogo.

Eu e a minha mãe

 

Vila do Conde tem mais encanto vestida de vermelho e branco

 

Equipada a rigor, sozinha, entrei no Alfa na Campanhã. A estação cheia de benfiquistas à espera do comboio Benfica. A alegria naquelas caras, a esperança naqueles olhos. Até as minhas sapatilhas gritavam tetra (3 estrelas em cima e 4 de lado). Porra, toda eu gritava tetra!

Euzinha, toda linda com sapatos “à Benfica”

 

A desfilar os modelitos tetras pela CP

 

Já em viagem, e acompanhada da minha ansiedade de quem vai para um sítio sem bilhete na mão, reparei que a meu lado ia uma miúda com metade da minha idade e a sua mãe. A miúda parecia mais ansiosa que eu. Depois descobri porquê. Também não tinha bilhete… até Lisboa lá conseguiu. Eu continuava sem bilhete a ansiedade aumentava.
Chegada à gare do Oriente e depois de uma bela francesinha (sim, fui a Lisboa comer francesinhas) no Tappas do Parque das Nações (iguaizinhas às de “casa”), lá fui para o estádio. Sabem aquelas alturas em que parece que tudo de mau acontece no mesmo dia? Foi o que me aconteceu… mas em bom.

Francesinha sem sotaque do norte, mas com o mesmo sabor

 

Quando dei por mim tinha um bilhete na mão. Camarote.

Lá canta o Seu Jorge “Burguesinha, burguesinha, burguesinha…”

 

Bem, eu prefiro a festa no meio do meu povo, mas quando lá entrei e vi um arroz doce com a cara do Eusébio feita em canela, rendi-me. E eu nem gosto de canela diga-se.

O Rei dos arrozes doces

 

Vivia-se um momento de ansiedade e esperança brutal. Do meu lugar conseguia ver os adeptos a sentarem-se. Os sorrisos nas suas caras. O grupo organizado de adeptos 😉 a prepararem a festa e o apoio que nunca faltou. O jogo começa, as unhas começam a ser roídas. “Não vai ser fácil” pensei eu. O Guimarães anda a jogar muito, já o meu Benfica…. O meu Benfica calou-me! Com um banho de bola, encostou “os espanhóis” (desculpem mas eu trabalho em Braga há 12 anos, é mais forte que eu) às cordas. Com um jogo impecável, o meu Benfica mostrou porque é tetracampeão: porque sempre procurou isso, o título, o sonho, o tetra (ao contrários dos rivais que a única coisa que queriam era ganhar ao Benfica). Confesso, só com 3-0 respirei! Já via o tetra apesar das lágrimas que teimavam em turvar-me a vista. Mas não deixei sair nem uma. Eu era forte… Com 5-0 o estádio chorava. A catedral ria. A minha família já pedia o 37. Eu só queria festejar o 36. “Apita lá isso”. E apitou! O Benfica era tetracampeão. Depois de tanto saltar com os golos e de tanto cantar, não conseguia mover-me. Apenas viver o momento. Olhar à minha volta e sentir a felicidade imensa, os abraços, os sorrisos, as lágrimas. Caramba! Isto aconteceu mesmo!?!

 

Mas… se eu achava que aquilo era um sonho, as horas seguintes provaram-me que não. Aquilo era apenas eu a adormecer. De repente sinto uma mão e uma voz que diz “anda”. Eu fui. Dei a volta ao estádio pelos corredores e quando dei por mim estava a entrar no camarote por cima da tribuna presidencial. O meu Presidente já estava no balneário a festejar e eu estava ali deliciada a ver a felicidade do Mantorras, o sorriso da mulher do nosso Eusébio ao lado do nosso Primeiro-Ministro. Trazem-me a garrafa do 36 para a mão e gritam “SOMOS TETRACAMPEÕES”. Olho para a mesa e estavam ali as 4 garrafas Sagres: a 33, a 34, a 35… a 36. Começo a acreditar.

Mão direita, mão direita é penalty (a menos que seja o Pizzi contra o Sporting…)

 

Depois da entrega do troféu e das gargalhadas ao assistir à loucura do Eliseu e da sua mota era hora de ir para o Marquês. Mas como eu iria para o Marquês? “Vamos embora” ouvi eu. “Desce”, “Vai à porta X”, “Aqui não pode entrar”, “Liga para….”. Foram tantas as frases que ouvi que tanto me diziam “vai ser do caraças” como “se calhar fico mesmo á porta”. De repente ouço “pode entrar”. E entrei…

 

Entrei e dou por mim no relvado. Frente ao palco onde ainda há pouco tempo a taça do tetracampeão tinha sido entregue. “Eu estou mesmo aqui”? A pessoa que estava comigo, a “abrir-me” as portas, pede-me que lhe tire algumas fotos ali. Eu estava tão espantada que nem me lembrei de tirar uma a mim. Só ao palco. “Foi ali caramba! Foi ali….”.

O palco de todos os sonhos…

 

“Vamos”. Entro pelo túnel dentro e dou de caras com o meu futuro presidente (assim o espero). Com um ídolo (e tenho poucos confesso). The one and only… Rui Costa! Nah! Agora quero uma foto. E o Rui, do alto da sua felicidade imensa diz “claro campeã!”. Podia ficar mais feliz que naquele momento?

 

Podia.

 

Entrei na garagem do Benfica. Começo a ver passar por mim caras conhecidas… caras que me deram o tetra. O pai do tetra aparece na garagem, de fato impecável e fraldas da camisa de fora. Não fosse aquela sua cara e ar de presidente d’O Benfica eu diria “que gajo descomposto”. Sempre sério, sempre atento.

 

Entro para a sala de jogadores e famílias e foi a loucura! Miúdos corriam, mulheres sentavam à espera, fila para comer (quem tinha fome naquela hora????), a BTV fazia diretos.

 

Encosto-me a um canto e quando dou por ela estava ao lado da mota que tanto km fez no relvado conduzida por um “louco”. O louco aparece de repente, ainda acelerado, de bandeira dos Açores às costas. Eu só pensei “este gajo ainda não tomou banho?”. Até hoje estou sem saber.

 

Eles começam todos a passar por mim: Ederson, Jonas, Fejsa, Samaris… era fotos, era entrevistas, era abraços. De repente ouço “Su”? Viro-me e estava ali o autógrafo da minha camisola ao vivo e a cores. O Nelson Semedo, o “meu menino” reconheceu-me. Perguntam-me vocês “mas como?” É o que dá ter um marido (que nem foi ao jogo) dizer a toda a gente que tem uma maluca pelo Benfica lá em casa. Eu tinha-o visto uma vez na rua. O meu marido foi ter com ele e eu fiquei no meu canto do outro lado e ele acenou-me. E naquela hora reconheceu-me. Porra… podia ficar mais feliz que naquele momento?

 

Podia.

 

Vem o Pizzi e a Susana saca uma foto com o Comandante com a mão em quatro. Devo dizer-vos que sim, ele viu-me bem. 🙂 Podia ficar mais feliz?

 

Podia.

 

Vem o Filipe Augusto. Conheci o Filipe Augusto ainda no Rio Ave. Fui ter com ele para lhe dar um recado do meu mais que tudo e quando dou por ela tinha a camisola do jogo na mão e uma foto com o detentor do sorriso mais genial dos tetracampeões. Podia ficar mais feliz?

Agarrei-me a ele como ele agarrou o nosso meio-campo quando foi preciso…

 

Podia.

 

Há duas pessoas que para mim personificam, neste momento, “em campo”, a mística do Benfica. A primeira chama-se Luisão. Quando vi o Luisão estava ele de copo de vinho na mão. A fazer um brinde. Podia ser com qualquer um. Mas não era. Era com empregados que ali estavam a trabalhar. Homens simples, de sorriso rico e que, segundo palavras do próprio Luisão, sem eles e outros como eles, “nós não seríamos tão bons”. Obrigada “capitão” por mais uma lição.

]

 

Alguém me pede uma powerbank (tanta foto destrói qualquer bateria) e, ao tirá-la da mochila caiu-me o batom do cieiro. Quase nem tive tempo de reparar nisso, quando sinto alguém, que nem me apercebi que ali estava antes, a apanhá-lo e a devolver-mo, com uma velocidade impressionante. “Aqui está campeã”. Era o Shéu. Desculpem. O Sr. Shéu. Bastou 2 minutos de conversa para perceber que ali, ali estava o Benfica. A mística do Benfica em pessoa. Educação, respeito, postura… um gigante em tamanho normal. Sempre na sombra, sempre no seu canto. Mas quando é preciso ele aparece. Quem não viu, no final do jogo em Vila do Conde, ele a ceder o seu casaco a um jogador em tronco nu? Ele precisava e ele ali estava. Eu precisei, e ele ali esteve. Caramba. Também eu sou tetracampeã. Podia ficar mais feliz?

 

Podia.

 

Haverá algum dia abraço com mais mística?

 

Mais alguns episódios giros surgiram. O Júlio César a ser pintado nas faces com 36 e a pregar sustos às maquilhadoras. A pintura não borratava, mas elas não conseguiam continuar de tanto se rirem. Carrillo com uma folha branca na testa para se pintar “Tetracampeão” a berrar “não me incomodem que eu estou a fazer a maquilhagem”. E eles continuavam a passar por ali, na vida deles. E eu via. E sorria. Podia ficar mais feliz?

 

Podia.

 

Estava na hora de ir para o Marquês. Caramba? E como vou? Minutos antes tinha ouvido um zunzum sobre a possibilidade de ir na camioneta dos campeões. Naquela que vai atrás com a família e amigos. Eu olhava à minha volta e via muita gente. A camioneta é só uma. Nós cabíamos todos em muitas. Nah… eu vou a pé. Mas eu podia ser mais feliz…. De repente, e porque estava com a família e amigos do Carrillo ouço “Carrilha, a tua pulseira está aqui”. Ela estava ali… amarela berrante, “Sport Lisboa e Benfica” berrava ela. “Bora”!

 

As pernas tremiam. Tanto que me tive de agarrar ao subir… quando dei por ela estava lá em cima. Atrás da camioneta dos tetracampeões. Vamos arrancar. “1904! 1904! LALALALALA! LALALALALALA!” Arrancamos. Já se via a saída do túnel da garagem. As sirenes da polícia. Os berros de felicidade das dezenas que se espremiam lá em cima comigo não me deixaram preparar para o que iria ver. Começamos a sair da garagem e de repente os nossos berros foram completamente abafados pelas centenas de pessoas à espera na rotunda Cosme Damião. Um mar de gente envolto numa nuvem encarnada…. O Benfica ali, em cada um dos eufóricos adeptos que nos esperavam.

All aboard, the title train

 

 

A viagem até ao Marquês foi…. Inesquecível. Além do facto de perceber que fui o caminho todo ao lado da mulher do Fejsa (e como sei disso, eu que não conheço uma única mulher de jogador além da do Júlio César? Porque quando se ouvia a “We are the champions” ela gritava “10 times”), ver tudo aquilo que vi ao percorrer aquele caminho a pé, lá de cima é uma experiência única. As pessoas a correr ao nosso lado, olhávamos para a frente e os jogadores do nosso Benfica eufóricos e a cantar ao megafone, as celebrações em conjunto (parecia que nos conhecíamos todos, nós lá em cima e os gloriosos lá em baixo), putos em cima de postes de eletricidade, de árvores, carros a parar no meio da faixa contrária só para sair e mostrar o cachecol. De repente alguém berra “o Salvador ganhou!!!” “Portugal! Portugal”. Eu recebia mensagens a perguntar se demorávamos muito. “Eu sei lá… olha, estamos a passar a casa do FCP em Lisboa…. Muahahahahahahahaha!”. Confesso…. Deu-me um gozo enorme responder isto. Podia ser mais feliz?

Olha, eles também apagaram as luzes depois de nos verem ser campeões…

 

 

Podia!

 

Passamos o Saldanha e o mar de gente aumentou. Nunca vi igual. A visão lá de cima é muito diferente. Tanta gente… um mar de gente. As camionetas pararam. Tínhamos chegado. Confesso que aqui podia ter sido mais feliz. A festa do Marquês continua a ser única mas que saudades eu tenho da viagem da camioneta no meio dos adeptos em plena rotunda. Agora para bem antes, e os jogadores saem diretamente para detrás do palco. Perdeu-se alguma proximidade com isto mas caramba…. Não me ia queixar agora, certo?

 

 

Entramos para detrás do palco… que visão! O Marquês visto de cima, repleto de benfiquistas é uma visão única. Mas visto dali, com toda a gente virada para ti, é de te tirar o fôlego. Um mar infindável de cabeças, de sorrisos, de felicidade.

 

Fala o pai do tetra, fala o Luisão, fala o nosso treinador. Tão igual a si mesmo que, se repararem, nunca o vi nas horas que antecederam este festejo… ele deixa brilhar quem merece, mas mal sabe o quanto também merece. Não percebo porque não saltaste quando te pedimos ainda durante o jogo, disseste-nos que não com os dedos e apontaste para o relvado. Não Rui. Tu mereces tanto como eles. Tu mereces tanto…

 

Merecemos todos este tetracampeonato.

 

Agora, se eu mereço tudo o que vivi? Quem me proporcionou a concretização de um sonho diz que sim. Já eu acho que o Benfica merece muito mais de mim.

 

Amigos de outras cores, podem continuar a atirar-me à cara os pentas, todas as conquistas que o meu Benfica ainda não atingiu e vocês sim. Prefiro mil vezes o meu tetra… Até porque, como disse o meu Presidente, “Queremos continuar a fazer História”.

 

Obrigada a todos os que me possibilitaram este sonho acordada.
Obrigada especialmente ao A.C., C.S., N.R.
Obrigada Benfica. Até Sábado… no meu Porto.

 

Susana Silva

No Comments

Optimization WordPress Plugins & Solutions by W3 EDGE