June 19, 2018

 

É expectável que até ao próximo dia 2 de fevereiro outros candidatos, além de Pedro Madeira Rodrigues, se apresentem a votos nas eleições para a presidência do Sporting.

Inquestionavelmente, esta é fase mais crítica da era de Bruno de Carvalho e, por isso, o momento mais apetecível para questionar as opções da sua gestão e, acima de tudo, o estilo da sua liderança.

 

No plano desportivo, é difícil, de facto, explicar uma diferença de rendimento tão gritante face à época passada e compreender um desacerto tão notório em matéria de contratações, já que nem Markovic, nem Elias, nem Castaignos, nem Alan Ruiz, nem André, nem Petrovic, nem Douglas, nem Meli acrescentaram absolutamente nada à equipa…

Por outro lado, muitos dos “braços de ferro” que Bruno de Carvalho promoveu em nada favoreceram os interesses da instituição a que preside. O “caso dos vouchers” penalizou mais o Sporting do que o Benfica, a batalha jurídica travada com a Doyen foi perdida em todas as frentes, a forma como o processo de saída de Marco Silva foi conduzido foi lastimável e, last but not least, o conflito com Carrillo e o seu empresário culminou com a saída, a custo zero, do peruano para o rival da Segunda Circular…

 

A ideia que transparece é que o Bruno de Carvalho revela uma enorme incapacidade de alcançar soluções de consenso, optando constantemente pela via do confronto aberto e direto e semeando, dessa forma, múltiplos focos de conflito.

 

A um Presidente de um clube com a história e a dimensão do Sporting exige-se mais.

Exige-se que seja capaz de se sentar à mesa com aqueles de quem não gosta, de forjar alianças com aqueles de quem diverge e, acima de tudo, de evitar que cada “desinteligência” se converta num conflito insolúvel e cada conflito num infindável chorrilho de insultos e de acusações na praça pública. Mesmo quando tem razão.

 

Dito isto, e apesar das múltiplas críticas que podem ser feitas à postura institucional de Bruno de Carvalho, continuo a achar que o balanço geral da sua liderança à frente do Sporting é positivo.

Pelo menos até aqui.

 

Isto porque, para se avaliar do estado atual do Sporting, é preciso ter bem presente o contexto em que o atual presidente encontrou o clube, em 2013. É que Bruno de Carvalho não “herdou” o Sporting de José Roquette, campeão nacional de 1999/2000, nem o de Dias da Cunha, campeão nacional de 2001/2002.

Na verdade, Bruno de Carvalho assumiu a liderança durante o período mais negro da história do Sporting, sendo obrigado a lidar com os efeitos, tanto no plano desportivo como financeiro, da gestão de Bettencourt e de Godinho Lopes.

Sporting era, nessa altura, um clube depauperado nas suas finanças, ferido no seu prestígio e na sua “autoestima” e, sobretudo, muitíssimo enfraquecido no futebol.

 

Todos nos lembramos da gestão de Bettencourt ― o presidente que, ao despedir Paulo Bento, logo avisou, a título de profecia, que “os sportinguistas ainda vão ter muitas saudades dele…”.

O mesmo que designou Costinha como diretor desportivo. Que escolheu Carvalhal e Paulo Sérgio para treinadores. Que vendeu Moutinho ao Porto. Que deixou a equipa órfã do seu jogador mais decisivo (Liedson) a meio da época de 2010/2011. Que gastou 6,5 milhões de euros num avançado que praticamente nunca chegou a jogar e acabou dispensado (Sinama-Pongolle)…

 

Mais traumático ainda foi o curto, mas miserável mandato de Godinho Lopes, o presidente eternamente associado à pior classificação de sempre do Sporting no campeonato nacional (7.º lugar em 2012/2013), na mesma época em que o Sporting passou pela vergonha de ver o seu nome incluído na lista oficial de incumpridores da UEFA, sem esquecer a inacreditável derrota na final da Taça de Portugal frente à Académica.

 

Ao longo do descalabro da gestão de Bettencourt e de Godinho Lopes, os sportinguistas habituaram-se a ver o Sporting atacar com Saleiro ou Djaló, defender com Grimi ou Evaldo, e alinhar com Gelson Fernandes ou Maniche ― numa fase em que este último já era assumidamente um “ex-jogador em atividade”. O título tornava-se invariavelmente uma miragem ao fim de poucas jornadas e o quarto lugar era já encarado com naturalidade.

 

Bruno de Carvalho rompeu com este paradigma conformista e descrente, trazendo com ele uma cultura de exigência que há tanto tempo faltava em Alvalade.

Goste-se, ou não, do Presidente do Sporting, é impossível negar o salto competitivo que o Sporting registou desde a sua chegada. Aliás, não deixa de ser irónico que muitos dos adeptos rivais que criticam Bruno de Carvalho sejam os mesmos que, há uns anos atrás, tanto lamentavam a falta de competitividade do Sporting dos tempos de Bettencourt e de Godinho Lopes…

 

No plano desportivo, Bruno de Carvalho teve sobretudo o mérito de saber escolher técnicos competentes: com Leonardo Jardim, iniciou o processo de afirmação competitiva do Sporting, com Marco Silva alcançou a primeira conquista, e com Jesus colocou o Sporting noutro patamar de qualidade.

Por sua vez, esta aposta acertada num comando técnico competente permitiu criar as condições para enquadrar e fazer evoluir os talentos mais promissores da Academia de Alcochete, o que permitiu o aparecimento de William Carvalho e de Adrien em 2013, de João Mário em 2014, e mais recentemente de Gelson Martins.

 

No plano negocial, Bruno de Carvalho revelou, em certos dossiers estratégicos, uma assinalável habilidade e um apurado sentido de oportunidade, conseguindo surpreender a massa associativa com contratações e negócios com os quais nem o sportinguista mais otimista jamais sonharia, e que eram completamente impensáveis há poucos anos atrás. Foi essa habilidade que lhe permitiu resgatar Jesus, o treinador tricampeão pelo Benfica, assegurar o empréstimo de Nani, um dos mais destacados jogadores portugueses, ou vender Slimani e João Mário por valores que ultrapassaram os 70 milhões de euros.

 

Graças a este crescimento competitivo do Sporting no plano interno, Bruno de Carvalho tem contado, até aqui, com um clima de apoio e de adesão (quase) generalizada por parte dos adeptos.

Resta saber se terá a humildade e a coragem para rever algumas das suas posições, quando os mesmos adeptos o questionarem nos momentos de insucesso mais agudo…

 

Vasco Rocha

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