July 16, 2019

O treinador Italiano está de volta. Após épocas de domínio – anos 80 e 90 – nomes como Ranieri, Ancelotti e Conte devolvem ao Calcio a sua marca de origem: vitórias. Conquistas. Como a Itália parece estar de volta para a bola e o que isso significa. Pá.

Numa entrevista dada há uns meses, Antonio Conte admitiu que o Futebol Italiano perdeu muito terreno, concretamente para o Espanhol, o Inglês e o Alemão, que até então só cheiravam bolinha jogada por malta amante de pizza, boa pinga de uva e Eros Ramazzotti.

“Estamos vivos, estamos de volta!”, disse à 1904, publicação com selo FIFA. “Os clubes voltaram a investir na formação e a Federação lançou programas ambiciosos, sérios, com vista à modernização do jogo”.

Conte desenvolveu, “Estamos no bom caminho… comparo com a Alemanha, que há 15 anos começou a espalhar centros de treino por todo o lado. Sabemos no que isso deu: um título Mundial às costas de miúdos”.

Conte não perde de vista o Euro 2016, que pode levar para Itália um título Continental que não conquista desde 1968. Aliás, a já referida Alemanha e a Selecção Espanhola são líderes no que à prata de Selecções da Velha Europa diz respeito. Tanto os Alemães como os Espanhóis têm 3 títulos. A Itália foi tantas vezes Campeã da Europa como… a Grécia. E a República Checa, p.e.

A Via Coppa foi a mais rápida de sempre. Nunca a Itália se qualificou de forma tão rápida para uma grande Competição. Convém é não abrir o Frascati antes da hora… uma coisa é lá chegar depressa e bem, outra é aterrar e 5mins depois para casa voltar, como aconteceu no Brasil em 2014. A Itália caiu para 15º do ranking FIFA. E não estará propriamente no radar dos favoritos a conquistar o troféu…

“Vamos dizer que temos ambições. Quero lá saber se somos ou não favoritos. Prefiro ir como outsider. Desde que estejamos preparados… se tudo correr bem, jogaremos 7 partidas. Temos de ser melhores que os adversários durante 7 jogos. Tudo tem de estar afinado para se ser Campeão. Nunca se esqueçam da Itália, é só o que posso dizer!”, atira um ‘confiançudo’ q.b. Conte.

“Como jogador, pude aprender com enormes treinadores. Lippi. Trapattoni. Sacchi. Ancelotti. É normal que lhes mande umas mensagens. Vou ouvi-los bem. Fazer um apanhado de tudo. E juntar as minhas ideias!”, continua o treinador natural de Lecce.

“Ser Seleccionador não é bem como se diz por aí… aprende-se bastante. Quero ser um treinador completo. Por isso digo que quero criar e aplicar as minhas ideias!”, concluiu, isto antes Disto ter acontecido…

 

Uma grappa com Ranieri

De Lecce viajamos até Roma, ou melhor, Leicester, onde mora uma velha raposa das lides do Calcio, um tal de Claudio Ranieri: “Numa era onde o dinheiro tudo compra, acho que conseguimos dar esperança às equipas mais fracas!”, atira, provavelmente sem mencionar o impronunciável nome do milionário que toma conta dos destinos dos The Foxes: então aqui vai, sem qualquer tipo de copy paste: Vichai Srivaddhanaprabha.

“Cheguei aqui em Agosto e uma das primeiras coisas que fiz questão de fazer foi ver os jogos todos da época passada (…) quando falei com os jogadores, percebi que eles tinham medo do estilo de jogo Italiano. Da táctica. O que o Futebol representa para o treinador Italiano é apenas isso: táctica. Controlar o jogo seguindo ideias e sistemas do treinador. Em Itália, fala-se muito de Futebol!”, reiterou, numa entrevista dada no passado mês de Fevereiro ao Corriere della Sera.

“Eles não me pareceram convencidos e, em boa verdade, eu também não sabia por onde começar. Admiro muito quem monta novos sistemas tácticos mas sempre achei que o mais importante num bom treinador é fazer uma equipa que ‘fale’ pelos seus jogadores, que puxe pelas características de cada um deles”.

Ranieri parece ter ‘chegado’ aos seus atletas: “disse-lhes que confiava cegamente em cada um deles, deixei a abordagem táctica de lado. Era importante que o ritmo imprimido fosse alto, que eles mostrassem raça, que corressem muito. Hoje ainda vejo isso, quero que eles corram até ao fim da época!”.

“A meu ver, treinar o físico não é muito importante em Inglaterra. Treina-se de forma muito intensiva, eles aplicam-se estupidamente, nem que seja num sprint. São atletas bastante competitivos…”, sublinha, antes de desenvolver “os jogos aqui são disputadíssimos. A minha ideia é recuperar primeiro, treinar depois. Acredito no treino, e isto pode ser quase uma heresia no meu País, mas também acho que pode ser relativo. Os meus rapazes treinam muito. No sentido qualitativo, jamais quantitativo, se é que me faço entender”.

“Aqui o Futebol é sempre intenso, é arrebatador, a malta fica maluca quando vai ao Estádio. Os meus miúdos precisam de recuperar. Jogamos Sábado, Domingo dou folga. Segunda-feira treinamos ligeirinho, tal como se faz lá na terrinha. Terça-feira dou treino intenso, à Quarta folgamos. Quinta-feira dou-lhes outra vez tareia, Sexta-feira preparação, Sábado estamos a jogar e da capo!”

“Os jogadores folgam 2 dias por semana. Prometi-lhes a primeira vez que falei com eles. Aliás, garanti-lhes: comigo vão aprender Futebol. Ensino-vos o que quiserem desde que me deixem a pele em campo”.

“Não considero o approach ideal mas o Futebol não é Química, não obedece a regras universais. Quando tirares o melhor da tua equipa, ficas contente. Isso é o mais importante!”.

Ranieri refere que em Leicester toda a gente sente que contribui para o sucesso colectivo, “jogar mal significa que estás a trair os teus colegas. Os meus jogadores são livres, humildes e responsáveis. Gosto que sejam assim, gosto sobretudo que continuem a ser assim”.

“Eu tenho um jogador que vem todos os dias de Manchester (173kms) e outro que vem de Londres (162kms). Isto seria impensável na minha terra, é apenas estranho… em Leicester acontece porque a equipa se predispõe a isso. E a board autoriza. Isto deixa-me orgulhoso, ver que estamos todos no mesmo barco!”

Ranieri fala ainda do rótulo ‘nutricionista’ colado a vários treinadores Italianos: “nunca vi malta a comer tanto. Tanta fome tem a minha equipa! Estranhei e depois habituei-me. Se eles continuarem a correr desta forma… podem comer o que lhes apetecer!”.

Mais distinções entre Itália e Inglaterra: “acho que lá os jogadores não desfrutam tanto. Treinam com menos intensidade, menos raça. É mais cumprir calendário, um pro forma.

“Aqui eles sabem que são novos, saudáveis e que têm uma das melhores profissões do Planeta. Seria apenas parvo desperdiçar tudo isto. Quando temos treino é como se tivéssemos um jogo. Nunca repreendi nenhum jogador do Leicester por ser preguiçoso”.

Ainda Ranieri. Ainda a sua relação com os jogadores. Parece um treinador reencontrado consigo e, sobretudo, com a sua paixão pela Modalidade: “eles precisam de estar relaxados. Não podes pressioná-los. Eles só querem andar calminhos e ser respeitados no balneário. Se te armas em prima donna… eles acabam contigo!”.

“Aqui quase todos os jogos são derbies. Vi um Milan-Inter há uns dias e parecia Futebol Inglês: velocidade, remates, jogo esticado e muita competitividade. Nada Italiano…”. Que mais conselhos tem Ranieri para os candidatos à conquista da Premier League?

“Digo-lhes sempre… procurem aquilo que vos faz vibrar. Chama, quero chama. Uma oportunidade destas não passa duas vezes. Procurem a chama, não tenham medo. Não tenham mesmo medo, vocês devem sonhar, é totalmente legítimo que o façam!”

Ranieri tem a consciência do autêntico milagre que está a operar. A melhor classificação do Leicester no Campeonato Inglês foi um 8º lugar. Está neste momento a pouco mais de 6 pontos de um Título que nunca conquistou.

“Sei que nem sempre resulta como estou para aqui a dizer. Ninguém sabe exactamente… apenas encontrámos um bom equilíbrio e uma fórmula que resulta. Vamos respeitar isso até ao fim”.

Ranieri está convertido: “o Leicester City é o que eu sempre quis encontrar num clube. Metade Futebol, metade consciência de um objectivo. Nenhum de nós acha que isto é uma seca, que temos de trabalhar para viver, se assim fosse acordávamos sempre cansados, desmotivados. Se viveres para o trabalho, ao menos que dês algum significado ao teu trabalho. É o que tentamos fazer todos os dias”.

 

Pode o Leicester chegar ao título?

“Sei lá. É fantástico merecer a pergunta! Quando eu cheguei, o Presidente pediu-me 24 pontos pelo Natal. Acho que fizemos 37 ou 39, já nem me lembro. E agora estamos lá em cima. E a dar esperança aos mais pequenos, numa era em que o dinheiro compra tudo e mais alguma coisa. E os estereótipos quanto aos Jogadores, mudaram alguma coisa?

“São Ingleses, sabes que vão focar-se mais no físico do que na técnica. São diferentes dos Italianos, que se apaixonam logo pelo magricela que faz o que quer com a bola. O Futebol deles é velocidade e força, é power! Eles olham para um gajo de 1.90m e pensam num ponta-de-lança.

Os Italianos? Querem sempre um nº 10…”

 

Mais Allegri. Mais Ancelotti.

Poucos diriam que Allegri, um “tarefeiro” de expressão menor ou simplesmente irrelevante para os olhos habituados a comer golos de Messi ou recordes de golos de clubes Espanhóis e Alemães, chegasse a dar luta ao Barcelona na final da Champions da época transacta.

Aconteceu.

Poucos acreditariam em La Décima quando o Atlético de Madrid parecia ter a final resolvida. Carleto jogou, remuntou e venceu. Por 4-1.

Err… também aconteceu!

Poucos diriam que o Calcio tivesse a melhor média de golos de todos os Campeonatos Europeus.

Isso… aconteceu. 1024 contra 1009 de La Liga, só na época passada.

Na última jornada dessa mesma época? 47 golos marcados. Em Inglaterra marcaram-se um total acumulado de 975 golos. Na Alemanha? 814.

Isto para quem achava que em Itália o Futebol era uma pasmaceira pegada. Calem-se!

É talvez dos poucos Campeonatos onde um jogador de 38 anos consegue marcar tantos golos como. um de 23 (Toni vs Icardi, 22 golos cada). Dados também referentes à época transacta.

 

No fundo

Eles ‘andem’ aí. E para o ano há Ancelotti no Bayern a fazer-se ao bife da Champions League…

A questão não é se o Futebol Italiano está de volta.

Ele nunca saiu daqui!

 

Palmarés combinado Sacchi+Capello+Lippi+Ancelotti+Conte+Ranieri igual a

Manuel Tinoco de Faria

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