August 17, 2018

 

Braga, 1982.

 

À sua maneira, Quinito sempre foi um cromo

 

O setubalense Quinito fazia a transição de jogador para treinador. Escolhi escrever sobre este homem do futebol, porque treinar não são só títulos, e talvez Quinito seja o treinador com mais amigos no nosso futebol, algo que considero um factor muito importante, se não o mais importante de todos, saber ser líder e ao mesmo tempo amigo dos seus atletas é algo que só está ao alcance de predestinados, e o velho Quinas era exactamente isso.

 

 

Quinito fez uma carreira bastante positiva, passou por clubes como o Braga, Rio Ave, voltou a Braga, e em 86 decidiu emigrar voltando em 87/88 para representar o Espinho.

 

Jorge Nuno Pinto da Costa e Quinito

 

Depois de uma época brilhante, Jorge Nuno Pinto da Costa decidiu contratá-lo para o Futebol Clube do Porto. Todos lhe perspectivavam um futuro brilhante à frente de um grande, mas durou apenas seis meses. Como disse o próprio, aquela dimensão, aquele gerir de egos, não era para ele. Herdou uma equipa que tinha sido recentemente campeã da Europa frente ao todo poderoso Bayern de Munique, cheia de estrelas internacionais, e essa não era a simplicidade a que estava habituado.

 

 

Quando um ser humano não se identifica com essa realidade, ou com a pressão de obter resultados, não é por isso que deixa de ser um grande treinador. Quinito é melhor dos que os que têm o currículo cheio de troféus, porque tem a amizade dos seus antigos atletas e inúmeras estórias para contar.

 

 

Os seus sorrisos e entrevistas contagiavam qualquer adepto de futebol puro, aquela mítica correria à volta do banco de suplentes no antigo Dom Afonso Henriques, quando era treinador do Vitória Sport Clube [aka de Guimarães], ficou como uma das suas imagens de marca que jamais irei esquecer.

 

Quinito e Pimenta Machado

 

Há dois anos atrás visitei a cidade de Guimarães onde fiz um amigo. Sendo eu benfiquista e colecionador de cachecóis comprei um do Vitória. Ao entrar num restaurante o dono veio prontamente ter comigo e começámos a falar de futebol, ou melhor, eu de futebol e ele do seu clube, todos sabemos como são os vitorianos. Quando lhe disse que era do Benfica, ficou admirado e disse-me que jamais compraria um cachecol do Benfica, ri-me, e compreendi, devido ao fanatismo.

 

Um dos momentos mais marcantes da carreira de Quinito. E que foto, senhores…

 

Nessa tarde havia um Benfica – Rio Ave e perguntei-lhe onde poderia ver o jogo ali perto. Ele fez uma breve paragem para pensar e respondeu-me,

 

Acho que o café do meu irmão tem Benfica TV.

 

Passadas ali duas horas de conversa, onde falávamos do Vitória de Quinito e da sua perda enquanto pai, ele disse-me

 

Vamos ali ao café do meu irmão.

 

E como bom hospitaleiro que era, levou-me lá.

 

Quando lá chegámos, estava um rapaz a trabalhar atrás balcão, que prontamente me foi apresentado. Foi jogador do Vitória e tinha sido treinado pelo velho Quinas. Contou-me que não tinha ido mais longe, porque não tinha seguido os conselhos dele, e que hoje se arrependia disso, mas que ele ou qualquer jogador que tivesse passado pelas suas mãos, tinha ficado com o mais importante, a amizade, e lamentava, como todos nós, a sua ausência do futebol.

 

 

Como em tantas reportagens que já vi com antigos pupilos de Quinito, as suas últimas palavras de quem o conhece são sempre

 

Espero que volte rápido!

 

E foi isso que me disse aquele rapaz, naquela tarde, por detrás de um balcão.

 

De referir ainda que Quinito acabou a sua carreira como treinador principal em 00/01 no Estrela da Amadora, tendo sido, uns anos mais tarde, adjunto de José Couceiro no Gaziantepspor da Turquia e depois disso, director desportivo do Vitória Futebol Clube [aka de Setúbal].

 

Ivo Monteiro

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