December 5, 2019

 

Enquanto benfiquista posso dizer que só fui fã de Jorge Jesus em dois momentos temporais, quando este esteve no Braga, e o achava desenvolto e com coragem, por depois de ter sido prejudicado em duas jornadas consecutivas contra FC Porto e Benfica ter proferido a célebre frase “O Braga campeão só na Playstation”.

 

Reparem que no meio desta rant, onde estava carregado de razão, acrescentou que em Portugal só os três grandes podiam ser campeões, fazendo vista grossa ao Boavista de Jaime Pacheco de 2001. JJ sempre teve problemas em admitir méritos alheios, mas na altura perdoei-lhe isso e mais (anos mais tarde já no Benfica disputaria um título taco a taco com o Braga de Domingos até à última jornada, acabando por provar que esta sua teoria estava errada).

 

O segundo momento em que gostei muito de JJ foi na sua primeira época de águia ao peito. Durante um ano, apesar de ter o plantel mais forte que já vi o Benfica ter (Cardozo, Saviola, Aimar, Di Maria, Ramires, Javi Garcia, David Luiz, Luisão, Fábio Coentrão, Maxi Pereira, Nuno Gomes), pôs a equipa a jogar futebol com um fulgor, uma eficácia e uma exuberância ofensiva ao nível das melhores equipas da Europa.

 

Depois desse magnífico ano seguiram-se três anos horribilis em que perdeu toda a credibilidade amealhada, e dois últimos muito bons, sobretudo o penúltimo, onde conseguiu algo que eu nunca tinha visto, fazer o Benfica ganhar com uma superioridade e naturalidade tais, que nem precisou de esperar pela última jornada para comemorar o título (pergunto-me quando voltará a acontecer de novo). 6 anos e três títulos de campeão. Duas finais europeias perdidas (aquela segunda então…), mas o Benfica de novo no top 10 do ranking de clubes da UEFA. Apesar do ratio títulos/anos estar no break-even, o saldo geral tem de ser considerado (manifestamente) positivo.

 

Devido ao seu temperamento, JJ esteve longe de ser uma figura consensual na Luz, mesmo nos anos das maiores conquistas ao serviço do clube. Apesar de não gostar do estilo, admito que Jorge Jesus me deu muitas alegrias inesperadas. Da adaptação de Fábio Coentrão, à reinvenção de Di Maria e Matic. O sobre aproveitamento de Jardel, a descoberta de Oblak e Witsel, enfim, inúmeras. Se há coisa que é certa é que de JJ podemos esperar tudo. Mesmo tudo. Tanto que este fim-de-semana voltou a acontecer algo que não contava: mais uma boa alegria dada pelo mister mais famoso da reboleira. A primeira desde que abandonou o meu clube.

 

Sim, adivinharam, estou a falar da substituição de Bas Dost aos 84’ do derby.

 

A imprevisibilidade de JJ traduz-se nisto, fazer o impensável. Quando numa fase em que o Sporting encostava o Benfica às cordas, e os benfiquistas imploravam para que o jogo acabasse de qualquer forma, ou para que o Lindelof voltasse à forma de quando não tinha cabelo (nessa altura nunca sofreríamos um golo como o que minutos antes tinha marcado… Bas Dost), eis que Jorge Jesus tira o ponta de lança holandês do campo!!!

 

No momento em que subiu a placa da substituição não sei quem fez um ar mais surpreendido, se eu, se o goleador que veio do Wolfsburgo. É clicar aqui e ver para crer.

 

Na conferência de imprensa, quando perguntado sobre o porquê de o ter feito disse “O Bas Dost teve uma bola no ferro e um golo durante os 90 minutos. Foram dois lances que saíram dos pés do Joel [Campbell]. Nós precisávamos de velocidade no ataque. O Bas Dost já não é rápido por si só, é um finalizador. Naquele momento, precisávamos de um jogador para aumentar a intensidade de jogo, o que não é fácil a 10 minutos do fim. Foi isso que queríamos com a entrada do André” mas mesmo assim, e já decorridos três dias desde o jogo não m’acredito.

 

Parece impossível que num momento em que o clube mais desesperadamente precisa de finalizadores, JJ tenha abdicado do seu melhor marcador da temporada e, aquele que é, de longe, o mais importante jogador do clube nesse capítulo específico. O Sporting marcou até agora 24 golos na Liga. 8 desses golos são de Bas Dost, ou seja, 33,33%. O holandês vale literalmente 1/3 dos golos.

 

O terceiro melhor marcador da competição saiu para dar lugar a André Filipe, que marcou apenas um golo pelo Sporting na Liga. Num período de muito chuveirinho para a área, como sempre acontece em caso de desespero das duas equipas (quando uma ataca como pode e a outra defende como consegue), sai um pinheiro de 1,96 metros e entra um avançado móvel de 1,84. A mobilidade até poderia ser um trunfo se as linhas do Benfica não estivessem já super recuadas, não havendo espaços nas costas de ninguém para fazer o que quer que fosse, algo que piorou ainda mais com a entrada de Samaris.

 

É fácil jogar o jogo dos “ses” e especular o que aconteceria caso Bas Dost se tivesse mantido em campo. Teria o Sporting ganho? Ter-se-ia mantido o resultado? O Benfica teria aumentado a vantagem? Nunca saberemos. Não há certos nem errados em situações hipotéticas. Verdade é que o Sporting ficou (muito) menos perigoso com a sua saída , e eu pude dizer uma última vez “Obrigado Jorge”, mas desta vez agradeço porque [mais uma vez] fizeste Das Bosta da grossa!

 

P.s: Já agora, e se o André tivesse marcado? O que teria acontecido? Então este texto não existiria e o Jorge Jesus lutaria taco a taco com o Humberto Coelho do Euro 2000 [tirou Rui Costa para entrar Costinha quando precisava de ganhar à Roménia, e o médio defensivo ‘ministrou’ o golo da vitória das quinas] pelo prémio “Fiz a mais irracional das coisas, tive sorte, agora todos me acham um génio e vou viver demasiado tempo em estado de graça por causa disto”. Este prémio por sua vez ganharia o prémio de “Competição mais irracional de todos os tempos em nome e no formato” em igualdade pontual com a Taça da Liga.

 

Pedro Filipe

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