December 7, 2019

 

São tempos difíceis para aparecer nas notícias na Conferência Oeste. Os Warriors são os campeões, os Spurs sacaram a única estrela free agent que aceitou mudar de equipa e os Clippers roubaram o nosso coração com emojis. Mas porque raio é que ninguém fala dos Thunder como um dos principais candidatos ao título? Em breve descobriremos que isso não faz sentido.

 

Vamos fazer rewind. Há duas épocas, OKC era a segunda melhor equipa da NBA. Parece que foi há décadas, não é? E isso aconteceu num ano em que o Westbrook só jogou 46 jogos na época regular. Acabariam por ser eliminados por uns disparatadamente bons e futuros campeões Spurs. San Antonio estava a jogar o melhor basquetebol dos últimos anos, com jogadas orgásmicas que dizimavam a moral dos adversários, e OKC teve de lidar com a ausência de Ibaka por dois jogos. Perderam 4-2.

 

 

Essa foi a época da explosão de Durant, que finalmente mostrou o que é capaz de fazer quando não tem de partilhar a luz dos holofotes – e principalmente a bola – com o Westbrook. Na época regular acabou com médias de 32 pontos, 7,4 ressaltos, 5,5 assistências e a acertar mais de 50% (!) dos lançamentos de campo. Ganhou o MVP.

 

O resto da história é mais fácil de lembrar. Durant falhou o início da época devido a uma fractura no pé direito. Regressou em Dezembro, mas acabou por abandonar definitivamente a época em Fevereiro. Péssimas notícias, mas que pelo menos nos deram direito a um Westbrook em modo supernova. Um anjo da morte que fazia chover afundanços-de-parar-a-rotação-da-Terra na cabeça dos adversários. Jogava de forma tão zangada que às vezes temíamos que ele se lesionasse nos festejos dos próprios pontos. Foi o melhor marcador dessa época (28 pontos/jogo) e fez 11 triplo-duplos, mas, como é habitual, foi pouco eficiente e OKC ficou fora dos playoffs.

 

Nuno Aguiar OKC Foto 1

 

Portanto, o que estamos agora a dizer é que vamos juntar o melhor marcador do ano passado com o MVP da época anterior. Na mesma equipa. Estamos a falar de provavelmente 2 dos 5/7 melhores jogadores da NBA. Ainda nos lembramos que este desporto se joga 5v5, certo?

 

A última vez que OKC esteve na máxima força tinham a quinta melhor defesa da NBA e o sexto melhor ataque. E esta equipa é melhor do que a de há dois anos. Durant e Westbrook têm 27 e 26 anos, respectivamente, entraram agora no auge da sua carreira. Se Durant recuperar bem da lesão (já lá vamos…), serão ambos tão bons ou melhores do que antes.

 

Nuno Aguiar OKC Foto 2

 

A juntar-se a eles está um Ibaka com um jogo atacante muito mais refinado. Em 2012-2013 marcou 20 triplos. No ano passado, 77. A percentagem de lançamentos que acertou também aumentou de 35% para 38%, estando já acima da média da Liga. Ibaka pode ser o “stretch 4” dos Thunder, sem as deficiências defensivas que muitos desses jogadores têm. Ibaka é muito bom a proteger o cesto. Só dois jogadores fizeram mais abafos no ano passado e só Gobert consegue que os adversários acertem uma percentagem mais baixa dos lançamentos perto do cesto.

 

É verdade que os Thunder perderam o Reggie Jackson, mas também não terão de meter em campo jogadores como Derek Fisher, Kendrick Perkins ou Caron Butler. Hoje têm um grande triplista no Anthony Morrow (43% de triplo), dois sólidos DJ Agustin e Kyle Singler, dois bigs promissores Steven Adams e Mitch McGary, um bom defensor em Andre Roberson e um rookie para desenvolver em Cameron Payne. A juntar à festa há ainda um enorme ponto de interrogação que é o Dion Waiters. Um jogador cheio de talento, mas que se deixou transformar numa punchline. É um autêntico meme andante, mais conhecido pelas parvoíces que diz no Twitter e por pedir a bola incessantemente, do que por alguma coisa relevante que tenha feito dentro de campo recentemente (lembram-se quando há um ano o Waiters disse que ele e o Kyrie Irving eram o melhor backcourt da NBA? LOL). Ainda assim, é indiscutivelmente talentoso e só tem 23 anos. É daqueles jogadores que podem ajudar a ganhar um jogo de playoff em 20 minutos do banco.

 

“Então mas este gajo não fala do Kanter?” Deixei o Kanter para o fim, porque ainda não sei bem o que pensar dele. Por um lado, será uma ajuda óbvia no ataque, principalmente na época regular. Alguém a quem podes dar a bola e ele arranja-te pontos de forma relativamente eficiente. Por outro lado, não consegue muitas assistências e defensivamente é uma absoluta nódoa. Tudo junto, independentemente de saber se o seu salário é justo (não é), é um óbvio upgrade em relação ao que tinham antes. Só acho que num jogo de playoff rasgadinho e renhido, não vai jogar muitos minutos. Aliás, o ideal seria que viesse do banco e liderasse a segunda equipa, mas Kanter pode ter dificuldades em aceitar isso.

 

Aliás, espero que os Thunder experimentem jogar mais vezes com o Durant a power forward. Um cinco com Westbrook, Morrow, Singler/Agustin, Durant e Ibaka. Boa sorte a defender isto. Não seria uma má resposta ao super small ball que os Warriors usaram nas Finais, por exemplo.

 

Isto é tudo muito optimista, mas obviamente que existem riscos. O maior de todos é a saúde de Durant. Será o mesmo jogador? Ele garante que sim e nada nos leva a pensar que aos 27 anos não recuperará totalmente. Claro que se Durant não regressar à forma de candidato a MVP, podem esquecer tudo o que escrevi nos parágrafos anteriores.

 

A outra interrogação é saber que sistema ofensivo será montado pelo novo treinador, Billy Donovan. Até aqui, o esquema de Scott Brooks – que tem o mérito de ter feito estes Thunder crescer – era basicamente dar a bola ao Westbrook ou Durant alternadamente, com poucas jogadas e pouco movimento. O resultado? Quando as coisas apertavam no final dos jogos, o ataque tornava-se previsível e pouco eficiente.

 

Oklahoma City Thunder head coach Billy Donovan, center, poses with players, from left, Nick Collison, Kevin Durant, Russell Westbrook and Serge Ibaka, during media day in Oklahoma City, Monday, Sept. 28, 2015. (AP Photo/Sue Ogrocki)

 

Por muito que me custe, a questão central aqui é Westbrook. Um dos jogadores mais excitantes da Liga parece ter um problema com sistemas mais rígidos do que aqueles que governam o movimento de partículas subatómicas. Veremos se o problema era não haver um bom esquema montado ou Westbrook estar-se a borrifar para ele. Mais: se num ambiente mais controlado, ele consegue continuar a ser o jogador explosivo que é.

 

Donovan é um rookie na NBA e não tem a relação paternal com estes jogadores que Scott Brooks tinha. Perante alguma adversidade, pode criar-se um ambiente de “vai ou racha” no balneário. Talvez seja o pior que pode acontecer, porque se os Thunder tiverem de optar entre Donovan ou Westbrook, a escolha não deve demorar a ser feita.

 

É verdade que os Warriors foram claramente a melhor equipa da NBA no ano passado e, sendo muito novos, só devem melhorar este ano. É verdade que nenhuma equipa teve um Verão tão bom como os Spurs, que foram buscar o LaMarcus Aldridge, o David West (por uma pechincha) e renovaram com o Danny Green, o Kawhi Leonard e, claro, Duncan e Ginobili. É verdade que os Clippers passaram de “temos seis jogadores para meter em campo” para um banco potencialmente muito, muito bom. É verdade que Houston terá agora em Ty Lawson alguém para aliviar o fardo do Harden. E também é verdade que os Grizzlies não vão a lado nenhum.

 

Mas OKC não merece ser deixado de fora das contas de candidatos ao título. Se as coisas não correrem horrivelmente mal – tipo, o Durant não voltar ao que era – os Thunder são no papel a terceira melhor equipa do Oeste (4ª melhor da NBA) e estão especialmente equipados para dar problemas aos Warriors e aos Spurs.

 

Nuno Aguiar OKC Foto 4

 

Três anos depois da histórica – e ruinosa – troca do James Harden para Houston, a janela de oportunidade de OKC ameaça fechar-se. No próximo Verão acaba o contrato do Durant (já se fala de Washington e LA) e no seguinte do Westbrook. Este ano será decisivo para provar a ambos que podem ser campeões em Oklahoma. Razões mais do que suficientes para jogarem com uma urgência redobrada.

 

Se correr mal, os Thunder podem ficar para a História da NBA como um dos poucos exemplos de um candidato ao título que chegou a umas Finais com uma equipa construída quase exclusivamente através do draft. Poderá ser também lembrado por se ter deixado implodir. Uma lição a aprender.

 

Até lá, enjoy.

 

 

Nuno Aguiar

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