December 15, 2017

 

Quem lê o título pensa “O que tem a Susana a dizer sobre a vinda do Infarmed, ou parte dele, para a cidade do Porto?” Poderia estar aqui a falar dos tais recuos do governo, da luta Norte-Sul e até do tom de “prémio de consolação” para a Cidade Invicta por ter perdido a sede da Agência Europeia do Medicamento, que esta transferência do Infarmed faz soar na realidade, mas não é bem disso que quero. Vou só aproveitar o “perder algo” e “guerra” do parágrafo anterior para o texto.

 

Ora pois bem, não escrevo nada desde O Meu Tetra. Shame on me, eu sei. Esse dia foi muuuuuito intenso, que foi, mas também não seria o suficiente para me “calar”. Quem me tem calado é mesmo o meu Benfica. Ao ponto de eu andar a ir ver jogos sozinha ao estádio, seja onde for. Rio Ave, Boavista, Aves e até Guimarães. Só eu e tu Benfica, porque já se sabe que nas piores alturas só estamos cá os dois. E tu tens andado a passar uma má fase, Benfica. Interna e externamente. Não vou perder tempo a falar de emails (embora mais umas linhas e vá já mandar um), nem de pratos de espécies cefalópodes, nem mesmo da perda de peças importantes ou de algumas escolhas menos consensuais do treinador bicampeão pelo clube, quero apena contar-vos que esta sexta-feira fui novamente à bola.

 

Dia de clássico. Não fui sozinha, mas convidada, com bilhete para o meio deles. Longe vai o tempo em que eu diria “Nunca, jamais….”. Aliás, ainda hoje recordo com um especial carinho a penúltima vez que fui ao Dragão para ao pé dos meus, sozinha, na noite em que ao minuto 92 o meu mundo (e o meu telemóvel) morreram. Nesse dia, depois do desastre, subi a Avenida do Dragão com um amigo azul e branco, em silêncio, entrei num Smart que em segundos teve a capota aberta para “caber o meu melão” (silêncio quebrado nesta altura, claro) e decidi mudar de BlackBerry para Apple. Mal eu sabia que esta mudança radical seria mínima comparada à que o meu Benfica sofreu depois disso.

 

Voltei lá no ano seguinte e a perder 2-1 cantei “E o Bernardo é campeão… e o Bernardo é campeãoooo allezzzzz”.

 

A vida muda e, já não bastasse lutar todos os dias contra um mundo azul e branco à minha volta, passei a ir ver os clássicos no meio deles, fruto da vida pessoal e profissional.

 

Mas não tenham pena de mim, meus amigos. Foi no meio deles que gravei isto

 

e isto

 

e ainda a debandada geral

 

e, por fim… o minuto 94

 

Como não amar ir para o meio deles? A coisa pode correr mal? Pode. Mas, e não sei se é por hoje fazer 42 anos, mas acho que me vacinei contra tudo aquilo que me fez sofrer este anos todos como benfiquista na cidade do Porto. O receio de andar com coisas do Benfica na rua já foi tempo, de ter de fugir da Ribeira por estar a gritar Poborsky num dia em que “levámos na boca” em mais um clássico, e fui para lá afogar as mágoas, já vai longe. Vejam lá vocês que ainda hoje estava na caixa de um supermercado em pleno Porto e à frente tinha uma banca a vender produtos do Benfica. Juro pela minha saúde! 🙂

 

Vacinei-me, mas tenho juízo. Esta sexta-feira, como estava a dizer há umas quantas linhas atrás, fui ver o clássico. Incógnita claro, e, vendo que a ansiedade era muita, optei por ir de Uber e não me enervar com o trânsito, nem com toda a conversa de raiva que se vai ouvindo Alameda abaixo em dia de Clássico. Chego a meia hora do jogo e, lembram-se da parte do fugir ao trânsito?, o Uber engana-se e ficamos parados no túnel que dá acesso ao P1 (parque da camioneta do FCP) e que fica por baixo dos Super Dragões. Eu ainda não tinha chegado ao estádio e já estava a levar com a “raiva” e com eco. Não podia sair do túnel e nunca mais lhe via o fim. 15 minutos depois lá consegui sair do carro, desejei boa sorte ao motorista (para a saída do trânsito, que para o jogo ‘tá queto’), corremos para as escadas, subimos sem quase sermos revistados (e aquele gozo de infiltrada sentida nos vídeos acima começou aqui eh eh). Faltava meia hora para o jogo começar e já estava lá dentro. Porra, estava um frio desgraçado decidimos esperar nos bares. Nunca na minha vida desejei tanto ser daltónica. Eu sou, verdade, mas do eixo verde-vermelho (ironias). O azul vejo bem, e ali havia muito azul, mesmo muito azul.

Ena, tanto azul…

 

No meio de tanto azul algo me salta à vista: uma miúda nova, encostada a um pilar, de blusão encarnado vivo, sem nada do FCP. “Porra, abusas de carago” penso eu carregada de admiração. Olho por mim abaixo e “cinzento e preto”, menos mal. Posso passar por quem nem gosta de nada disto, mas veio ver a bola.

Com cinzento e preto nunca me comprometo

 

Adiante, bebi uma água para acalmar (já que os medicamentos ficaram em casa), e entrei. Cara conhecida aqui, cara conhecida ali, olhares de “e se te denunciasse agora aqui minha menina?!” sorte a minha que gostam de mim 🙂 Ainda fiz uma aposta e tudo “O Varela tirou-vos aqui 2 pontos a época passada, ainda no Setúbal, vale uma aposta como hoje vos tira três?”. Eu estava realmente confiante! Há 3 semanas (desde o FCP  3 – Portimonense 2) que digo: “Começou, Esperem por Maio.” Voltando à aposta fiquei só pela metade, mas quase perdia. Fico na dúvida se a perda de 2 pontos foi culpa do Varela ou do Marega, por isso até hoje estou sem perceber se perdi ou se ganhei 😉

Herói e vilão numa das imagens da noite

 

Sento-me no meu lugar. Filha da mãe tinha de ser mesmo debaixo disto?

Porquê que me esqueci dos calmantes, Senhor?

 

Olho para a direita e vejo umas faixas no Coletivo a estenderem-se, um pano a desdobrar… Porra, de certeza que não trouxe calmante nenhum? Um polvo gigante…. A menção a uma panela. Ca put* de nervos dificilmente abafados pelas gargalhadas gerais à minha volta. Aquilo ainda era o “ensaio”.

Polvinho só gosto à lagareiro…

 

“Felizmente para mim” (este felizmente tem de levar muitas aspas), estava tão perto dos Super dragões que não consegui ver o pano (bem maior) deles.

Estão mesmo pertinho… :/

 

A daltónica aqui espreitou e percebeu que tinha muitas cores e lá no meio uma @… deixa lá ver se não tenho MESMO um calmante perdido no bolso das calças… Nada….

A tarja exibida pelos Super Dragões

 

As equipas entram e eu dou por mim a pensar “dou qualquer coisa para não ver mais polvos, nem arrobas” e levo com cartazes do FCP à frente dos olhos! Também não era preciso exagerar. Levanto-me para aplaudir o meu Benfica, mas quase não o vejo. Estou com ele só em pensamento.

Alguém me sabe dizer para que lado fica o relvado?

 

Começa o jogo e o meu Benfica carrega para cima deles. Ouço à minha volta “Fuo*d*-se”, “Estes gajos ainda marcam caralh*”. Estava rodeada do meu sotaque ‘marabilhoso’, mas tão mal ‘aprobeitadinho’. O meu Benfica calava os senhores do “vai ser mais um penta como na Champions”, “ides levar poucas” e até os “Su, estou com medo,não andamos a jogar nada”. Entrou com raça, com personalidade, com vontade de calar os abutres, a tomar conta da bola, a direcciona-la correctamente, a pressionar. Caramba, eu podia sonhar (e sorrir).

 

Mas tinha de ter cuidado com o sorriso. Acusámos muito a pressão que impusemos na primeira parte. Não melhoramos de um dia para o outro, meus amigos. A segunda parte foi toda do FCP que teve mais oportunidades e acabou por falhar muitos golos. A jogar em casa, os dragões pegaram no jogo e tomaram conta dele. Pressionavam, pressionavam, pressionavam. O Benfica, um pouco a medo, ia lá à frente de vez em quando e eu apertava o braço do meu marido. Ele em silêncio aguentava. O sorriso tinha desaparecido, mas apareceu a clareza da mente “Esta gente à volta não estranha eu não me manifestar como eles?” Sim, que a esta altura o estádio era um ensurdecedor cântico anti-Benfica. Lá no meio ainda ia ouvindo uns “estes gajos ainda sacam um piç*” e pensei “esta confiança, afinal, anda meia coisa”. Até que vem o fora de jogo mal assinalado e a bola lá dentro. E agora o que faço? Calo-me? Insurjo-me? Optei por aninhar…

Varela, o melhor benfiquista em campo, defende o remate de Aboubakar, mas o lance já estava interrompido

 

O jogo lá chega ao fim, 0-0. Um resultado que entristeceu bem mais os meus companheiros de setor e bancada que a mim 🙂 Era agora que colocava aqui um vídeo que tentei fazer do “Este ano há mais, este ano há mais, é rumo ao penta” mas teria apenas 2 segundos audíveis, uma vez que os Super Dragões decidiram fazer horas extras e ficar dentro do estádio mais um bocado. #FuncionáriosDoAno.

 

Recupero o que gravei no Bessa em Maio 🙂

 

Curiosamente, a saída foi muito calma. Poucas conversas de emails, de roubos ou de foras de jogo mal assinalados. Isto, claro, até abrir esse mundo maravilhoso da internet.

 

“Golo anulado” – porra, mas desde quando é golo depois de o apito (bem ou mal) soar? E o Herrera não devia ter levado amarelo por ter chutado a bola? Ok, fora de jogo mal assinalado. 1-0. Penalty do Luisão: vi as imagens 546353647 vezes e ainda tenho dúvidas.

 

Era agora que falava de todos os lances a nosso favor que não foram assinalados, não era? Mas não falo. Não falo porque é visível os nervos e a raiva dos azuis, e porque sinceramente, falar é alimentar a cegueira que afeta qualquer um dos adeptos dos grandes.

 

Mas também não falo porque realmente estou preocupada com a saúde dos que me são próximos, principalmente os que achavam que nos iam humilhar. É que ficaram mesmo nervosos, cabisbaixos numa hora, histéricos com “golos anulados” noutra.

 

Já tomavam qualquer coisinha para acalmar. Eu não tenho comigo, mas o Infarmed está quase aí, aproveitem bem a sua chegada que vão continuar a precisar. Ou não aproveitem. Eu continuo a achar que é essa vossa mania de se esconderem atrás dos árbitros que vos faz nascer, crescer e acabar a época a ganhar bola.

Medicamentos no Porto precisam-se. Urgentemente.

 

E agora se me permitem, parabéns a mim e viva o Benfica!

 

#UmaBenfiquistaDaCidadeDoPorto

 

Susana Silva

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