October 19, 2018

O Entre Linhas tem a sorte de ter não um, mas DOIS ESPECIALISTAS em NFL, apaixonados pelo complexo e espectacular desporto que é o futebol americano. Por ocasião do quinquagésimo segundo Super Bowl, os nossos dois consultores de luxo responderam às perguntas que estão nas bocas de todos os adeptos e curiosos, pelo que vos apresentamos os seus prognósticos. Directos e sem rodeios, e sobretudo antes do jogo, eis as previsões do Pedro Quedas e do Nuno Fernandes.

 

Quem tem o melhor ataque?

Pedro Quedas – Este texto seria muito mais interessante se não tivesse sido uma crucial lesão. Quando Carson Wentz sofreu uma grave lesão no joelho esquerdo na jornada 14, muitos enterraram os Eagles. Não necessariamente no sentido de não chegarem aos playoffs, dado que já tinham acumulado uma boa vantagem, mas antes nas suas hipóteses de avançarem até à final. E, no entanto, aqui estão eles. Vamos ser sinceros: Nick Foles não é um quarterback que inspire imensa confiança – apesar de ter brilhado contra os Vikings (já cá volto, mais à frente neste texto). Por outro lado, a linha ofensiva de Philadelphia é uma das melhores em toda a liga, e isso não só torna o seu running game temível mas também dá tempo a Foles para escolher as suas melhores opções. Tudo isto para dizer que o ataque dos Eagles não é tão fraco como se possa pensar. E o que interessa toda esta análise? Muito pouco. Porque os Patriots têm o Tom Brady. E o Tom Brady só vai deixar de dominar no ataque quando lhe enfiarem uma estaca no coração.

 

Nuno Fernandes – Falar do ataque de Eagles e Patriots é falar de irmãos gémeos, ou pelo menos muito parecidos. Ambas apresentam um forte jogo em corrida, um jogo em passe seguro e tight ends capazes de fazer a diferença, principalmente Gronkowski. Os números mostram que os Patriots foram muito ligeiramente superiores a marcar pontos (458 para 457 dos Eagles, o que dá exactamente a mesma média, 28.6), ganham mais jardas por jogo (394.2 para 365.8), sendo melhores no passe do que em corrida, facto ao qual não será estranho o facto de o ataque ser liderado por Tom Brady. Em New England o jogo em corrida está muito bem distribuído, sendo impossível prever em quem Bill Belichick vai apostar mais em cada jogo, uma vez que tem quatro running backs de elevada categoria (James White, Rex Burkhead, Dion Lewis e Mike Gillislee). No jogo em passe o arsenal de armas à disposição de Tom Brady também faz inveja a qualquer um, começando pelo já mencionado Gronk e passando por Brandin Cooks, Danny Amendola (que bem tem estado na função que seria destinada ao herói do último Super Bowl, Julian Edelman), Chris Hogan e Phillip Dorsett.

 

 

Indo até à Cidade do Amor Fraternal, encontramos o grande ausente deste Super Bowl: Carson Wentz. O quarterback lesionou-se com alguma gravidade na vitória em Los Angeles no dia 10 de Dezembro e deixou a equipa entregue a Nick Foles que, curiosamente teve a melhor época da sua carreira em Philadelphia.

 

 

Com esta troca forçada Philadelphia perde a ameaça que Wentz seria em termos de mobilidade. Ainda assim, Foles tem vindo a subir de rendimento, tendo estado muito bem na final de conferência contra os Vikings (26 passes completos em 33, para 352 jardas, 3 touchdowns e nenhuma intercepção). O jogo em corrida apresenta um antigo Patriot como grande ameaça (LeGarrette Blount vai tentar o segundo anel consecutivo e o jogo em passe deverá ter como alvos preferenciais Alshon Jeffery, Torrey Smith e principalmente o tight end Zach Ertz (cuja esposa é a internacional norte-americana de futebol Julie Ertz).

 

 

Resumindo, na área atacante vantagem New England, pela experiência e qualidade.

 

Quem tem a melhor defesa?

Pedro Quedas – Aqui, as diferenças são consideravelmente mais acentuadas. Bill Belichick é um dos maiores génios defensivos da história da NFL, principalmente no que diz respeito a ajustar a sua estratégia para cada equipa. Dito isso, ao longo da temporada, a defesa dos Patriots tem sido nada menos que desastrosa, principalmente contra running backs, um dos pontos mais fortes do ataque dos Eagles. No entanto, acredito que Belichick vai assumir a sua falta de medo de Foles e colocar linemen extra para parar os running backs Jay Ajayi e LeGarrette Blount. A ver vamos se vai resultar. Do outro lado, a defesa dos Eagles é uma das melhores em toda a liga. Fletcher Cox é um dos mais dominadores defensores em toda a liga, tanto a parar o jogo pelo chão como a pressionar o quarterback. Considerando as suas dificuldades na mobilidade, vai ser uma noite longa para Tom Brady. Considerando que Cox estará rodeado por outros talentos como Sydney Jones, Chris Long, Ronald Darby ou Malcolm Jenkins, a vantagem neste duelo está claramente do lado de Philadelphia.

 

Nuno Fernandes – Na área defensiva temos dois modus operandi diferentes. Enquanto que os Patriots têm concedido mais jardas aos adversários para depois endurecerem a defesa na red zone, os Eagles colocam mais pressão nos quarterbacks adversários através da sua linha defensiva. Os Eagles foram a quarta melhor equipa em jardas concedidas (306.5 por jogo), os Patriots foram a vigésima nona (366 em média), mas se falarmos de pontos concedidos as coisas aproximam-se muito, com os Eagles a concederem 18.4 pontos por jogo e New England a permitir 18.5. Não se deve menosprezar a adição do veteraníssimo James Harrison, dispensado por Pittsburgh e aproveitado com a mestria habitual de Belichick, já causou impacto nestes playoffs, uma vez que veio preencher uma lacuna na segunda linha defensiva de New England, agravada pela lesão de Dont’a Hightower.

 

 

A defesa de New England ainda assim evoluiu bastante: nos primeiros quatro jogos sofreu em média 31,25 pontos, daí para cá apenas 14. A defesa de Philly tem mantido maior estabilidade, tirando partido do facto de conseguir fazer muita pressão só com os quatro jogadores da primeira linha defensiva, dando assim maior liberdade de planeamento ao seu coordenador defensivo. Assinale-se ainda o facto de a defesa dos Eagles ser muito boa na defesa do terceiro e quarto downs, áreas extremamente importantes do jogo (terceira melhor no 3º down e 1ª em situações de 4º down).

Equipa defensiva: vantagem Philadelphia.

 

Que estrelas vão brilhar mais?

Pedro Quedas – Com o esforço considerável que os Patriots vão fazer para tentar neutralizar o running game dos Eagles (mesmo achando que vão quebrar ocasionalmente), não vejo nem Ajayi nem Blount a brilharem assim tanto. Assim sendo, a pressão estará do lado de receivers como Jeffery e Agholor para criar grandes momentos que podem inverter a tendência do jogo. Ainda assim, acho que a melhor receita para os Eagles ganharem esta final estará com a defesa, por isso acho que devemos estar especialmente atentos a Fletcher Cox. Do lado dos Patriots, tudo começa e acaba com Tom Brady. Apesar da sua idade, qualquer estratégia de vitória para New England passa por confiar na sobrenatural visão de jogo do seu quarterback e na sua capacidade, principalmente nos momentos decisivos, para encontrar o homem livre, seja ele qual for. O tight end Rob Gronkowski, se estiver em boa forma física, poderá ser também um dos homens do jogo, dado que se movimenta nas zonas em que a defesa dos Eagles é mais frágil.

 

Nuno Fernandes – Como em todos os Super Bowls temos muita qualidade individual. Começando pelos Eagles, o receiver Alshon Jeffery é um nome a reter. Muita qualidade, sobriedade e eficácia. Sobre Zach Ertz já falámos, é o cobertor de segurança de Nick Foles, sem medo de ir ao choque. Quem estará certamente com muita vontade de brilhar será LeGarrette Blount, frente à antiga equipa, tendo sido o melhor running back dos Eagles durante a época regular.

 

 

Na defesa brilha outro ex-Patriot, Chris Long, defensive end, que forma o temível front four dos Eagles com Fletcher Cox, Vinny Curry e Tim Jernigan. Se estes homens conseguirem manter a forma da época e chegarem a Tom Brady, Philadelphia ficará mais perto de levar o caneco.

E por falar em Tom Brady, o californiano continua a brilhar intensamente na execução dos masterplans engendrados pelo seu treinador principal e pelo coordenador ofensivo Josh McDaniels. O quarteto de running backs irão carregar muito do ataque da equipa, a par com o também já vastamente referido Rob Gronkowski. O 87 dos Patriots é provavelmente o melhor tight end da história do jogo e faz tudo bem, desde bloquear e proteger Brady até receber os passes deste.

 

 

Um jogador que gosta de aparecer nestes momentos é Danny “Playoff” Amendola, que recebeu um enorme elogio de Bill Belichick após o jogo com os Titans. Na defesa atenção aos cornerbacks Stephon Gilmore e Malcolm Butler e a Duron Harmon, que foi o jogador de New England que registou mais intercepções durante a época regular.

 

Qual será o factor X?

Pedro Quedas – Dado o modo como os Patriots tendem a distribuir o jogo por quem está aberto e não necessariamente pelas suas “estrelas”, é difícil apontar um jogador específico que se possa assumir como um “factor X” na sua equipa. Quem mais se aproxima desse desígnio poderá ser Danny Amendola, que tem brilhado ao longo de todos os playoffs e poderá assumir-se como um alvo preferencial, principalmente se o jogo estiver apertado nos últimos minutos. Já do lado de Philadelphia, a questão é mais curiosa. Por norma, não podemos considerar o quarterback um “factor X”, dado que eles são o ponto focal de todo o ataque, mas é exatamente essa situação com Nick Foles. Apesar do seu jogo brilhante contra os Vikings, na ronda anterior, tenho plena confiança que os Patriots se vão concentrar bem mais em parar o jogo pelo chão e vão desafiar Foles a vencê-los pelo ar. Será que Foles vai quebrar debaixo desta pressão ou vai demonstrar que a sua exibição contra Minnesota não foi apenas uma aberração? Esta incógnita poderá muito bem definir todo o jogo.

 

Nuno Fernandes – Creio que a decisão deste Super Bowl se fará nas trincheiras, ou seja, nas lutas entre linhas ofensiva e defensiva de ambos os lados. A linha ofensiva de Philadelphia tem sido provavelmente a melhor da liga e muito do sucesso dos Eagles passará pela continuação desse bom trabalho. Contra uma também muito forte defesa de Minnesota Nick Foles teve tempo para tudo, raramente tendo sido incomodado. Muito se temeu pela competência desta linha depois da lesão de Jason Peters, que joga habitualmente a left tackle, uma posição extremamente importante por se tratar da protecção ao chamado lado cego do quarterback, mas o seu substituto, Halapoulivaati Vaitai, tem jogado muito bem. Como já referi, a linha defensiva dos Eagles tem desempenhado um papel muito importante no trajecto da equipa, causando bastante disrupção, coisa fundamental para contrariar estes Patriots. A terceira linha defensiva de Philadelphia também tem muita qualidade, mas creio estar nas primeiras linhas a chave do jogo.

 

 

Pegando nisto, a linha ofensiva dos Patriots terá que estar no seu melhor para contrariar estes Eagles esfomeados. Tom Brady não convive nada bem com a pressão, apesar de ser rapidíssimo a soltar a bola e se for contactado bastantes vezes o jogo irá ser mais complicado para New England. Por sua vez a linha defensiva dos Patriots tem que conseguir pressionar Nick Foles. Mesmo não sendo um jogador de topo, já mostrou ser capaz de distribuir bem a bola pelos seus receivers, se lhe derem tempo. A peça chave para os Patriots poderá muito bem vir da sua segunda linha defensiva, por Kyle Van Noy ou o já mencionado James Harrison.

 

 

Quem se vai sagrar campeão?

Pedro Quedas – Se os Eagles tivessem Carson Wentz em campo, era muito provável que o meu “voto” fosse para Philadelphia, mesmo depois da má experiência que tive o ano passado em não confiar nos poderes quase sobrenaturais de Tom Brady. Dado que os Eagles têm vantagens sérias em várias vertentes do jogo, não teria tido qualquer hesitação em fazê-lo. Tudo muda com Nick Foles no centro do ataque. Continuo a achar que vai ser um jogo muito renhido e que a forte defesa dos Eagles e a fraca defesa dos Patriots vão manter o jogo apertado até aos últimos minutos. Para os Eagles ganharem, seria preciso acontecer uma demolição tão profunda por parte da sua defesa que os Patriots seriam enterrados num buraco demasiado profundo para até eles saírem. Mas não acho necessariamente que isso vai acontecer. Apesar do que os vi a fazer contra a defesa dos Vikings (muito, muito melhor que a dos Patriots), tenho a sensação que o peso do momento vai fazer com que nunca consigam descolar-se, mantendo o resultado relativamente baixo e com pouca separação. Nessa situação, não há nenhum outro quarterback em quem eu confie mais para transportar a sua equipa para uma jogada decisiva nos últimos segundos que o imortal Tom Brady.

Resultado Final: New England Patriots 28 – 24 Philadelphia Eagles

MVP: Tom Brady

 

Nuno Fernandes – Manda a inteligência que não se aposte contra Brady, Belichick e companhia, mas este ano aponto para a vitória dos Eagles. Apesar de não terem um quarterback de primeira água, a restante equipa é muito sólida. Tem por isso capacidade para executar o plano de jogo ideal para contrariar estes Patriots, fórmula que os Jaguars tão bem exemplificaram na final de conferência durante três períodos. A diferença para Philadelphia está na qualidade quantidade de soluções que os Eagles têm, ao contrário de Jacksonville. Estabelecer o jogo em corrida, criar terceiros downs curtos, fáceis de negociar e fundamentalmente criar drives longos, sustentados e que mantenham Brady na linha lateral. Claro que do outro lado está o Imperador Palpatine e seus ajudantes (Belichick, Patricia e McDaniels), os melhores a planear e a ajustar o playbook durante a partida, que contam com o jogador mais titulado da História da NFL e que como se viu no último Super Bowl nunca podem ser menosprezados, mas creio que desta vez a festa se fará no outro lado do campo.

Resultado Final: Philadelphia Eagles 24-20 New England Patriots

MVP: Le Garrette Blount

 

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