August 25, 2019

Desde o arranque dos playoffs, que parece que estamos a caminhar, inevitavelmente, para um final anunciado. Mesmo agora, o vencedor parece relativamente óbvio. Mas isso foi o que dissemos o ano passado – e acabámos por ter uma das finais mais absurdamente entusiasmantes de sempre. Será que teremos essa sorte de novo? Já lá vamos. Primeiro, vamos olhar para algumas das narrativas mais importantes à chegada a esta final.

 

 

LeBron, Durant e o peso das expectativas

Vamos começar por dizer que LeBron é absolutamente ridículo. Nenhum jogador na história da liga se manteve no pico de forma durante tanto tempo – essencialmente, ele é o melhor jogador da NBA há quase uma década. Neste momento, é absurdo sequer argumentar que ele não está no Top 5 dos melhores jogadores de sempre – e, na minha opinião, já tem um lugar reservado no 2º lugar da hierarquia. Moral da história, LeBron já não tem nada a provar. A não ser uma coisa. A sombra de todos na liga. A sombra de Michael Jordan. O registo perfeito 6 em 6 de “His Airness” nas Finais torna o ato de o destronar muito, muito complicado. Mas se LeBron conseguir liderar os Cavs a uma nova vitória contra uma das melhores equipas alguma vez construídas, temos mesmo de começar a ter conversas sérias sobre quem está no topo da montanha. Do outro lado, temos Kevin Durant, que está simultaneamente numa posição invejável e complicada. Por um lado, está a um passo de se tornar campeão e, se consegui-lo, há uma forte probabilidade de levar para casa o troféu de Finals MVP. E isso só pode ser bom. Mas este parágrafo é dedicado a legados e aí Durant pode ver o seu beliscado, encontrando-se numa espécie de “lose-lose situation”. Se ganhar nas Finais, é o gajo que só conseguiu ganhar porque entrou na “bandwagon” da melhor equipa da NBA. Se perder, nem isso lhe valeu. Estes argumentos são completamente idióticos, é certo, mas espero que Durant esteja preparado para ouvi-los.

 

 

“Defesocentrismo” num mundo de ataques imparáveis

Os Cleveland Cavaliers, fundados na sobrenatural inteligência basquetebolística de LeBron James e uma armada interminável de executantes no tiro exterior, têm apresentado o ataque mais imparável na NBA estes playoffs. Já os Golden State Warriors, apesar da sua (justificada) fama de serem letais atrás da linha de três pontos, apresentam um ataque mais equilibrado e com uma generosidade na partilha da bola sem rival. São dos melhores ataques alguma vez vistos numa final da NBA. Talvez por isso seja curioso mas inevitável que este confronto venha a ser decidido pela execução defensiva. E é aqui que está o maior obstáculo para as esperanças dos Cavs. Porque se é verdade que os ataques de ambas as equipas estão relativamente equiparados, o abismo entre as defesas é gritante. Sim, é verdade que os Cavs têm estado melhor nesse aspeto nos playoffs (o dito “interruptor” que se esperava que ligassem), mas continuam a não estar ao nível dos Warriors. Steph Curry é provavelmente o elo fraco no esquema defensivo de Golden State e mesmo ele é bastante competente. De resto, o trio de Klay/Durant/Draymond é capaz de sufocar completamente até a mais potente das estratégias ofensivas. Do outro lado, vamos ver quanto tempo a defesa de Kevin Love e Kyrie Irving se irá aguentar quando forem submetidos a constantes pick and rolls. E ainda nem falámos de…

 

 

A sombra sufocante de Draymond Green

Sozinho na defesa num fastbreak contra Damian Lillard e Noah Vonleh, qualquer jogador estaria resignado ao seu destino. Mas os Golden State Warriors não têm “qualquer jogador” a ancorar a sua defesa – têm Draymond Green. A já icónica jogada acabou, não surpreendentemente, com um abafo. Apesar de ter sido absolutamente dominador ao longo de toda a temporada, o incansável coração da equipa da Califórnia tem estado noutro nível estes playoffs. Green é de incrível de ver a jogar. Para além dos seu contributos ofensivos, principalmente na distribuição da bola, o que torna um jogador sem igual na liga é a sua versatilidade defensiva. Draymond tanto tem a força para batalhar no garrafão com jogadores muito mais altos como a velocidade de reação para cobrir jogadores velozes nos perímetros – e junta a isto a inteligência para conseguir alternar entre as duas tarefas sem quase nenhum tempo de atraso. Draymond é também o líder vocal nas rotações dos Warriors e acaba por funcionar como um segundo treinador na orientação das rotações defensivas. Tudo isto para dizer que o Draymond Green é muito, muito bom. E, depois de ter sido uma forte razão para o declínio dos Warriors nas Finals do ano passado, vai estar extra motivado a vingar essa derrota. E há poucas coisas mais assustadoras na liga que um Draymond motivado.

 

 

Quem se vai sagrar campeão?

Qual cenário os deixaria mais surpreendidos? Os Warriors a ganhar 4-0 e a completar o primeiro “sweep” da História dos playoffs da NBA? Ou os Cavaliers a conseguir levar estas Finals a um Jogo 7? Talvez o próprio modo como estamos a enquadrar este embate denuncie a nossa opinião sobre o seu desfecho. A verdade é que os Cavaliers têm uma longa montanha a subir para levar este título. Isto porque o ataque dos Warriors é um pouco melhor (os Cavs têm sido mais eficientes estes playoffs mas contra muito pior competição) e na defesa a distância entre as duas equipas é colossal. No ano passado, os Cavs conseguiram, a espaços, tornar o jogo mais lento e impedir os Warriors de conseguir os triplos na transição que tendem a usar para desmoralizar as equipas adversárias. Quando foram forçados a jogar mais no “half court”, Golden State viu-se sem um especialista em “isolation” para desmontar o esquema defensivo dos Cavs. Mas agora existe Durant. A capacidade de Durant de tanto jogar “bully ball” como de se enquadrar de forma fluida no esquema de passes dos Warriors torna a missão quase impossível para uma defesa de elite. E a defesa dos Cavs é tudo menos de elite. Olhando friamente para os números, eu até deveria ter previsto que esta final daria em “sweep”. Mas existe apenas um pequeno grande problema: LeBron James. Mesmo já a entrar na fase veterana da sua carreira, LeBron continua a ser o melhor na liga e, quando se vê encostado às cordas, tem uma capacidade de “inventar” vitórias como mais ninguém na liga. Se, ao seu lado, tiver um Kyrie inspirado e um Love pronto a redimir-se da sua fraca prestação no ano passado, os Cavs têm uma nesga de esperança em levar o troféu pelo segundo ano consecutivo. Mas, a acontecer, seria um dos maiores “upsets” da História da NBA. Depois de uns playoffs mornos e quase sufocados pela sua “predestinação”, estamos todos a torcer por umas finais carregadas de emoção. Infelizmente, não sinto que seja isso que vamos ter.

 

GOLDEN STATE WARRIORS – 4 X 1 – CLEVELAND CAVALIERS

 

 

Pedro Quedas

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