October 22, 2019


O futebol português, um pouco à imagem da sociedade em geral, vive de hypes, polémicas estéreis e devaneios idealísticos momentâneos, como é o exemplo do recente coro de críticas à goleada imposta pelo Benfica ao Nacional da Madeira por dez bolas a zero.

A propósito deste tema, surgiram duas questões que serão aqui abordadas de forma superficial, não sendo de todo intenção deste escriba assumir um papel de arauto da verdade, nem tampouco de filósofo de algibeira:

  1. O 10-0 é um exemplo prático da falta de competitividade do campeonato português?
  2. A copiosa goleada imposta aos insulares é uma falta de respeito da parte do Benfica


Atalhando desde já caminho, a resposta para ambas as questões consubstancia-se num rotundo “não”. Senão vejamos:

  1. No que toca à competitividade do futebol português, tema que me é caro e que já abordei em artigos anteriores, é verdade que a mesma não anda a viver dias felizes, especialmente quando comparada com outros campeonatos por essa Europa fora. Mas este 10-0 em nada belisca o nível competitivo do campeonato nacional, sendo antes um resultado “anormal”, uma combinação de vários fatores que contribuíram para o dito desfecho: a) tudo o que podia correr bem ao Benfica, correu; b) tudo o que podia correr mal ao Nacional, correu; c) antes sequer de ter ousado tocar na bola, já o Nacional tinha encaixado um golo, aos 34 segundos; d) o nível individual dos atletas da Luz é bastante superior ao dos Nacional; e) Bruno Lage, não obstante ainda se encontrar em “estado de graça”, é um excelente técnico, incomparavelmente superior ao seu antecessor; f) Costinha é um técnico sofrível.


Por outro lado, a questão pseudo-filosófico-desportiva: o “tareão” imposto pelo Benfica ao Nacional é sinal de falta de respeito e consideração? Não. Claro que não. Jamais, em tempo algum!

Estamos no âmbito do futebol profissional, os jogadores vivem disto para pôr pão na mesa. O que significa que se encontram obrigados a dar o máximo de cada vez que envergam o símbolo que representam, seja ele qual for. Ainda para mais, quando jogam perante um estádio cheio de adeptos que pagaram o couro e o cabelo para assistirem in loco a uma excelente exibição da equipa do seu coração. Ademais, qual seria a mensagem passada pelos jogadores do Benfica caso tirassem o pé do acelerador e parassem, por exemplo, aos 5-0, como já foi por aí alvitrado? Não seria esta atitude completamente desrespeitadora relativamente aos jogadores adversários, demonstrativa de condescendência, paternalismo, até alguma pena por colegas de profissão que jogam no mesmo escalão? Se o adversário fosse outro, como o FC Porto ou o Sporting, os pruridos morais seriam os mesmos? Pois claro que não.

Venham mais 10-0, “mas é”. É disto que o povo gosta!

Miguel Pinho

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