December 14, 2019

Depois de todo o drama, de todo o sangue e suor, de todas as recuperações milagrosas e sonhos destruídos, de todos os ataques de coração e tareias desmoralizadoras, estamos aqui. Este Domingo, joga-se o Super Bowl – a final mais antecipada em todo o desporto norte-americano e um evento que já se tornou global. Hoje quero tentar prever o que podemos esperar desta final e vou fazê-lo olhando para três setores distintos do jogo:

 

O melhor ataque é a defesa
Segundo as melhores análises estatísticas de todos os especialistas que acompanham a NFL, os Denver Broncos têm a melhor defesa em toda a liga. Os Carolina Panthers não se ficam muito atrás, com a segunda melhor. Uma avaliação superficial destes dados poderia levar-nos a pensar que o talento abundante em ambas as defesas faria com que elas se anulassem mutuamente. Não necessariamente. No lado dos Panthers, a receita é simples. Linha da frente em pressão continuada, linha secundária sempre à caça de interceções e o seu talentoso duo de linebackers – Luke Kuechly e Thomas Davis – a limpar tudo o resto. Mesmo com Davis a jogar com um braço partido (sim, é verdade), o jogo de passes curtos de Peyton Manning terá um obstáculo duro a ultrapassar na zona intermédia onde os linebackers se passeiam como predadores na selva. Do outro lado, temos a defesa dos Broncos, cuja maior arma é o ataque ao quarterback contornando a primeira linha de defesa com Von Miller e DeMarcus Ware nas faixas, sempre de olho no passador. É uma arma devastadora, que demoliu por completo a linha ofensiva dos Patriots e deixou Tom Brady com flashbacks da Guerra do Vietnam. O problema? Esta estratégia tende a resultar melhor com quarterbacks estacionários, que gostam de se proteger atrás da sua linha ofensiva para ganhar tempo para os passes. Cam Newton é tudo menos estacionário e, adicionalmente, os Panthers apresentam uma variedade de combinações ofensivas no running game que têm deixado as defesas adversárias consistentemente confusas. O tempo que os Broncos demorarem a “encaixar” no ataque de Carolina poderá ser o fator mais crucial para decidir esta final.

 

Quarterbacks do passado, presente e futuro
Se as diferenças nas duas defesas são relativamente subtis e mais difíceis de delinear, os dois líderes das equipas finalistas não podiam ser mais distintos. Num lado, temos Peyton Manning, uma lenda viva que pode muito bem estar a fazer o seu último jogo na carreira. Com 39 anos, Manning tem vindo a revelar algumas fraquezas este ano – principalmente na força dos seus lançamentos, que originaram muitas interceções no começo da temporada –, mas desde que regressou de uma lesão que tem estado em muito boa forma. Acima de tudo não tem inventado demasiado com os lançamentos, uma estratégia que se poderá revelar fulcral contra estes Panthers, especialistas em converter grandes jogadas defensivas em pontos imediatos. Manning é um perito no passe, um homem de visão e precisão, com uma capacidade sobrenatural para “ler” as defesas. Um quarterback “clássico”. E, depois, do outro lado, temos Cam Newton, o muito sorridente líder dos Panthers – de tal modo que tem atraído controvérsia por festejar demais (é um mundo estranho este em que vivemos). Cam tem melhorado no passe a cada jogo, mas o seu jogo é tudo menos “clássico”. Mais nenhum quarterback na liga explora tanto o running game como Cam e isso deixa as defesas adversárias numa constante incerteza sobre como o vão tentar parar. Essa tentativa de semear a incerteza nos esquemas defensivos adversários tem sido grande parte da receita do sucesso dos Panthers este ano e nada indica que vão mudar de estratégia na final.

 

Como prever o imprevisível?
Como analista da liga que tento ser, procuro, a cada jogo que vejo, tentar perceber melhor as tendências das equipas e tornar-me mais preciso nas minhas previsões. Ainda assim, não há nada mais racional que reconhecer que cada Super Bowl carrega consigo uma boa dose de inesperado. Há quase sempre um “fator X” que nos apanha de surpresa e muda completamente a compleição do jogo. Impossível que essa tarefa é, vou arriscar numa humilde prestidigitação das “armas secretas” de cada equipa. No lado dos Denver Broncos, essa arma passa pela defesa. Uma interceção no momento certo pela linha secundária de Denver pode colocar os homens de Manning na frente e permitir-lhes controlar o jogo defensivamente e mantê-lo com poucos pontos – a melhor possibilidade que têm de ganhar. Quanto aos Panthers, arriscar-me-ia a dizer que essa “surpresa” poderá passar pelo wide receiver Ted Ginn Jr. O running back Jonathan Stewart garante yards valiosos com o seu jogo musculado e Greg Olsen é um dos alvos de passe mais seguros em toda a liga, mas é em Ginn que reside a maior esperança de Cam para “abrir” o jogo. O receiver dos Panthers é conhecido tanto por ser dos homens mais velozes na NFL como por ter, por vezes, mão de manteiga. Se Ted Ginn Jr. estiver inspirado e conseguir converter as suas corridas em receções, os Panthers poderão ter uma vitória fácil. Mas isso é tudo menos garantido.

 

Os Panthers têm o ataque mais dinâmico em campo e vão procurar entrar em grande na final, como fizeram nos confrontos anteriores contra os Seattle Seahawks e os Arizona Cardinals. Se o conseguirem, duvido que os Broncos tenham o “poder de fogo” no ataque para encetar uma recuperação milagrosa. Mas, se conseguirem aguentar a primeira investida e manter o jogo reduzido a field goals, terão boas hipóteses de ganhar. Dizendo isto de outra forma, a minha previsão é que ou Denver ganha num jogo renhido ou os Panthers ganham num jogo desnivelado. A ter de escolher uma das duas hipóteses, acredito mais na segunda.

Vencedor: Carolina Panthers

Pedro Quedas

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