December 15, 2017

 

Passada a febre do Eurobasket que coroou, merecidamente, diga-se, a Eslovénia como rainha do velho continente, as atenções voltam a focar-se na regular season da NBA, que está aí a rebentar em menos de um mês. Já chega de falar das enormidades exibicionais com que nos presentearam Alexey Shved ou Goran Dragic, e de ter ereções precoces com o potencial apresentado por Cedi Osman e Luka Doncic.

 

Assim sendo, e aproveitando a deixa provocada pela ida de Hoodie (pelo menos assim esperam os adeptos dos Thunder) Melo para Oklahoma, que retomou as discussões e as antevisões sobre a melhor liga de basquetebol do mundo, faço hoje a minha aposta para o prémio (na verdade inexistente) de revelação da temporada regular. Nota: não confundir este galardão imaginário com o galardão real de rookie do ano ou de most improved player. Neste caso, a ideia é nomear jogadores de quem se espera pouco ou que dividem opiniões entre os adeptos e os analistas, e que apresentem um rendimento que supere esse conflito de expetativas sobre eles criado. Sem mais demoras: é internacional finlandês e jogará esta época nos horríveis Chicago Bulls. Também provocou ereções de larga ordem no último Eurobasket, que merecerão menção mais à frente, mas isso, como a história nos diz, na NBA pouco ou nada importa.

 

 

Lauri Markkanen. 2 metros e 13 centímetros. Power forward. 42% de lançamento de perímetro. Pronto, mais um stretch four da moda como tantos outros na NBA atual. Nada mais a acrescentar, está feito, vamos todos embora. Infelizmente (ou felizmente, dependendo da perspetiva), Lauri, embora não consiga escapar a esse rótulo, já é muito mais do que isso, e pode vir a ser ainda melhor.

 

Destaca-se naturalmente a sua rapidez em armar o lançamento de qualquer zona do campo, sem que essa rapidez afete a sua eficácia, bem pelo contrário. A sua imagem de marca são os bloqueios diretos ao base com bola, em que de seguida abre para a linha de triplo e atira a contar. Caso, porém, detete vantagem de estatura (o que é muito frequente, dado que o base defensor por norma troca de marcação no bloqueio), é inteligente o suficiente para investir num post move ou num step back, em que o jogador que o está a defender dificilmente o conseguirá desarmar. Um outro movimento característico que também utiliza nestas situações de bloqueio direto é receber na linha de três pontos e, em vez de atirar de pronto, simular o lançamento e driblar tendo em vista um mid range shot, um afundanço ou um lançamento na passada, situações em que, embora ainda tenha muito que melhorar (como por exemplo a sua previsibilidade de atacar quase sempre pelo seu lado esquerdo), é já bastante respeitável tendo em conta que não soma qualquer minuto na NBA. Mas surpreende, sobretudo, o seu à vontade com a bola nas mãos para um jogador com o seu tamanho. Convenhamos, não é e dificilmente será um Kevin Durant, mas, dada a sua anormal mobilidade e agilidade, uma evolução dos seus handles tornará Markkanen numa arma ofensiva valiosíssima para Fred Hoiberg. Se, além disto, demonstrar evolução no trabalho de poste baixo, tem tudo para, em poucos anos, quanto mais não seja pela escassez de bons bigs na liga, chegar facilmente às nomeações das all-NBA e ao jogo das estrelas.

 

A seu desfavor, Lauri tem a fraca versatilidade defensiva. O facto de, defensivamente, ser um jogador algo macio e que prefere evitar o contacto físico, será problemático quando apanhar pela frente, por exemplo, um DeMarcus Cousins no lowpost ou um qualquer extremo rápido e explosivo, como Kawhi Leonard, no perímetro. Espera-se, claro, evolução, porque os bons princípios de jogo ao bom estilo europeu, estão lá. Contudo, é crível que a sua baixa velocidade de deslocação lateral e potência física sejam expostas nos primeiros tempos. A única hipótese é colocar Lauri a defender um jogador com as mesmas características que as suas. Como estes abundam na NBA dos dias de hoje, tal não será assim tão difícil. Caberá ao treinador ser capaz de esconder estas fragilidades. É importante referir ainda que, embora não que seja fundamental para um jogador da sua posição, o finlandês não tem muito instinto de playmaker nem é particularmente certeiro a abafar lançamentos. No entanto, estes não são aspetos dignos de detalhada análise.

 

Perguntam agora os leitores: serão estes argumentos suficientes para a minha aposta ser sequer levada a sério? Sei bem que não. A história da NCAA é fértil em jogadores com potencial que redundam em completos fiascos na NBA. É aqui que entra o Eurobasket, a que atrás disse que faria menção. Não sou acompanhante acérrimo das ligas universitárias, pelo que vi este jogador pela primeira vez em ação apenas no europeu. E, mais do que todo o moderno skill set, de que já tinha ouvido falar aquando da sua seleção em sétimo lugar no último draft, o que mais me impressionou foi como este miúdo de tenros 20 anos, com um ano de basquetebol universitário e nenhuma experiência a um nível competitivo de Eurobasket, foi capaz de liderar uma seleção de nível mediano a uma fase a eliminar, superando, na fase de grupos, conjuntos da valia de uma França ou Grécia, e caindo apenas frente à futura campeã por meros três pontos. Nos Bulls, com a incógnita em torno do físico de Zach LaVine e a incógnita geral em torno de Kris Dunn, resta Lauri para liderar o rebuild. O Eurobasket foi um prometedor teaser. Veremos se dará continuidade, agora na piscina dos grandes. Tem a palavra Markkanen.

 

A reação deste miúdo aquando da escolha de Porzingis no draft de 2015 é um tudo semelhante às expetativas dos adeptos dos Bulls para com Markkanen. O karma voltará a atacar?

 

João Mendes

No Comments

Optimization WordPress Plugins & Solutions by W3 EDGE