November 16, 2018

Bem, vamos lá a isto.

Esta é a minha 1ª crónica aqui no Entre-Linhas por isso se calhar convém apresentar-me aos leitores e leitoras assim rapidamente num parágrafozinho.

 

Antes de mais, eu escrevo com a gramática pré-Novo Acordo Ortográfico. Dito isto, podemos prosseguir.

O meu nome é Guilherme Percheiro, nascido na metrópole cosmopolita que é cidade alentejana de Évora. Fartei-me de estar no T0 que a minha querida mãe me ofereceu com todo o carinho durante 9 meses, sem ter de pagar renda (!), a 2 de Julho de 1992, tendo então já perfazido 26 anos até à data em que estou a escrever este artigo.

Com um secundário na área de Banca & Seguros e licenciado em Relações Internacionais acho que estou OBVIAMENTE qualificado para falar de Futebol… só que não.

 

Mas vou tentar. Se o Rui Santos e o Dani falam…

 

O nome desta crónica advém, aliás, precisamente daí, de eu ser simplesmente um gajo que adora ver, ler, comentar e falar sobre futebol. E quando alguém perguntar aos caros leitores o que tiveram a ler podem só dizer “Epá, olha, tive a ler uma crónica d’um gajo sobre…” e pronto não se chateiam muito.

 

Apresentação findada e visto esta ser a minha 1ª crónica aqui no Entre-Linhas, a pedra fundadora, a base da minha presença neste fantástico espaço, decidi então pegar também na que para mim é uma das pedras fundamentais do Futebol: o Passe.

E quando digo “passe” é aquele feito com o pé. Já dizia o Paulo Bento, não muito tranquilo, “Andebol e basquetebol mão; Futebol pé” – nem mais!

 

Quem nunca num jogo de futebol apontou a mão para a televisão e gritou “Epá, passa a bola!”, normalmente antecedido ou sucedido de um perjúrio que orgulharia Bocage?

Pois, todos nós, adeptos de Futebol, já o fizemos, mas se calhar poucos de nós já pensou na real importância de uma acção tão elementar como o passe ao longo dos tempos.

Espero com este artigo conseguir com o leitor, no fim deste, consiga apreciar mais o singelo gesto que é o passe quando o vir na televisão, computador ou ao vivo, executado por nomes mágicos como Luka Modrić, David Silva, Andrés Iniesta, Marco Verratti ou estrelas já retiradas como Xavi Hernandéz, Andrea Pirlo, Roberto Baggio, Zinedine Zidane ou Rui Costa, entre muitos outros.

 

Para entendermos a riqueza que se encontra num simples passe há que primeiro definir a Intenção do passe: construir, contra-atacar, manter posse, etc…

A partir desse momento podemos olhar para o passe através de 4 lentes: Tipo, Distância, Intensidade e Orientação. Como diz o velho ditado: “para grandes males, grandes remédios”; aqui podemos adaptá-lo para: “para diferentes males [leia-se situações], diferentes remédios”.

 

– Ora em termos de Tipo de passe temos o passe simples, o passe em trivela, o passe com o peito do pé, o passe de cabeça, o passe com o bico do pé e até de vez em quando aparecem passes mais acrobáticos como o passe com o peito, costas, ombro ou até joelho.

– Depois disso temos a Distância: passe curto e passe longo.

– Na Intensidade: a força com que se acerta na bola.

– E finalmente temos a Orientação do passe: horizontal, vertical e diagonal.

Intenção, Tipo, Distância, Intensidade e Orientação… Tudo isto num “simples” gesto técnico.

 

Se pensarmos bem, podemos até espremer o futebol jogado bem espremidinho a 2 situações: passe e chuto.

O que são pontapés-de-saída, cruzamentos, cantos, livres indirectos, lançamentos de linha lateral, senão passes? Todos diferentes mas com o mesmo objectivo em comum de entregar a bola a um colega de equipa.

Depois nos chutos incluímos os livres directos e os normais chutos à baliza para marcar golo.

A única situação que acaba por ser dúbia serão os pontapés-de-baliza que tantas vezes servem para passar especificamente para alguém da equipa como simplesmente para dar um chuto lá para a frente.

 

As primeiras luzes de futebol surgiram de maneira macabra na China antiga, cerca de 3000-2500 a.C. em que soldados chutavam cabeças de inimigos por entre 2 estacas. Obviamente que nessa altura ninguém pensava no que seria um passe, no entanto também de certeza que 2 engraçadinhos tiveram a ideia de passar uma cabeça a rebolar e o outro chutá-la.

Na Grécia antiga, na altura de Homero, surgiram as primeiras equipas de 11 a jogar em campos rectangulares, com bexigas de boi cheias de ar e areia.

Depois foi evoluindo, passando pelo Calcio Fiorentino (que ainda hoje se joga), até que em Inglaterra se começaram a estabelecer as primeiras regras, códigos de conduta e sistemas tácticos no século XIX, com a 1ª referência à palavra “passar” a surgir nas regras compiladas e únicas da FA (a então Associação de Futebol britânica) em 1863, sendo que naquela altura havia várias regras para o futebol dependendo da região (Regras de Cambridge, Regras de Sheffield…). Em 1867 foi introduzida a regra que permitia o até então sancionado passe para a frente.

 

Ora é então claro que tudo mudaria no Futebol a partir daquele momento. Uma pequena grande mudança que despoletou a verdadeira evolução do futebol, das formações, dos modelos e sistemas de jogo, como vamos poder ver agora numa rápida passagem por algumas formações, modelos e sistemas de jogo.

 

Figura 1 – Formação Pirâmide (2-3-5), a 1ª formação reconhecida

 

Figura 2 – Panfleto de confronto entre 2 equipas com a formação Pirâmide

 

A formação 2-3-5, também denominada de “Pirâmide”, foi a 1ª formação realmente reconhecida e usada recorrentemente.

Esta consistia num foco total no ataque, sendo que, curiosamente, na 1ª partida oficial internacional, Inglaterra vs Escócia em Março de 1870, o jogo acabou por ficar 0-0, onde se opuseram 2 equipas que apesar de uma formação semelhante, os seus modelos de jogo eram bastante diferentes: a Inglaterra apresentava um futebol de drible e a Escócia, para surpresa destes, apresentava um futebol baseado em passar a bola para colegas de equipa. Surgiu assim a 1ª equipa que utilizava o passe como ferramenta principal, sendo que até aí futebol era drible e chuto longo para a frente.

 

Figura 3 – Formação Metodo (2-3-2-3)

Mas desengane-se quem possa pensar que a anterior formação já não se usa. Com uma pequena mudança de recuar ligeiramente 2 dos atacantes para perto do meio-campo para dar consistência, esta formação criada por Vittorio Pozzo foi até há pouco tempo usada no Bayern Munich por Pep Guardiola, com as devidas afinações.

 

A preocupação de Pozzo seria haver mais apoio para fazer a bola chegar à frente com mais segurança e ter opções para o contra-ataque. Ou seja, Pozzo desejava não uma posse de controlar o jogo mas uma posse mais vertical, para conseguir chegar rápido ao ataque e ao golo, assente no passe curto e rápido e no drible.

 

Guardiola, por outro lado, viu nesta formação muitos triângulos para conseguir manter a bola na sua posse, tendo Phillip Lahm a actuar como médio-centro e pivot de todo aquele processo, sendo ele o vértice de 6 triângulos, onde só os 3 jogadores da frente não entravam nessa equação. Por isso, ao contrário de Pozzo, o seu contra-ataque era a última das preocupações de Guardiola pois o jogo tinha de ser do Bayern, a bola tinha de ser do Bayern. Utilizando o passe curto e pensado para controlar dos 0 aos 90 minutos e progredir até ao último terço. Não se tratava de um futebol de posse só por posse, o objectivo era chegar à baliza, até porque no último terço havia total liberdade para os jogadores, mas só o Bayern podia ter a bola.

Conseguimos aqui então ver 2 maneiras de lidar diferentemente com o passe, apesar dos 2 treinadores usarem essencialmente a mesma formação.

 

Se logo no confronto entre Inglaterra vs Escócia de para perceber que formação/sistema de jogo e modelo de jogo são coisas distintas, aqui então temos um exemplo ainda mais prático. É importante o leitor ter a noção da diferença entre formação (ou sistema de jogo), modelo de jogo e táctica. Resumidamente, formação trata-se do esquema montado, o modelo de jogo trata-se, digamos, do “estilo de jogo” que o treinador quer que a equipa pratique e a táctica trata-se da junção das 2 coisas: formação + modelo, a táctica para derrotar o adversário.

 

Figura 4 – Formação WM (3-2-2-3)

 

Com uma mudança nas regras do fora-de-jogo em 1925 (deixou de haver necessidade de ter 3 jogadores entre o atacante e a linha de golo para ter apenas 2) que coincidiu com a chegada do treinador Herbert Chapman (até então treinador do Huddersfield), este começa a utilizar a formação WM com bastante sucesso, recuando um dos médios centros para a defesa e ficando este responsável por ter atenção ao fora-de-jogo enquanto os outros 2 defesas cuidariam das alas.

 

Não se pense, no entanto, que Chapman foi o criador desta formação. Equipas como o Newcastle e o Tottenham usavam sistemas semelhantes, mas Chapman aperfeiçoou-o e desfrutou de bastante sucesso. O Arsenal jogaria assim com as ideias de Herbert Chapman: contra-ataque rápido, assente numa defesa forte e no uso de extremos velozes que poderiam por vezes cortar para dentro para rematar à baliza, sendo Alex Jones o jogador que servia de elo, o construtor de jogo que ligava a defesa com o ataque, principal responsável por aquilo resultar ou não.

 

Ora, a implementação desta filosofia só foi possível com a aplicação do passe longo, intenso, vertical. O passe curto, a posse, não eram opções válidas, o sistema de Chapman teria, quase garantidamente, sido um insucesso e a sua filosofia obviamente não estaria a ser concretizada.

 

Curiosamente ou não, essa formação e esse modelo de jogo teve um ressurgimento recente pelas mãos de uma também ela ex-glória do Arsenal, Patrick Vieira, aquando da sua passagem de 2 épocas (2016/17 e 2017/18) pelo New York City Football Club, da MLS, e com algum sucesso. Se bem que, admitidamente, Vieira não usava somente essa táctica, tendo-se mostrado flexível no uso de outras, mas impacto desta na performance positiva do clube é inegável.

 

Figura 5 – Formação 4-2-4

 

A próxima grande formação na lista é o 4-2-4, popularizado, com as devidas nuances, pela Hungria de Márton Bukovi (com Puskás), o Brasil de Flávio Costa (com Pelé e Zagallo) e as equipas do nosso conhecido Béla Guttman. Apareceu em resposta à rigidez da formação WM e foi a 1ª vez que se começou a falar a sério de fluidez de jogo e foi também a 1ª vez que se descreveu uma formação usando números.
Começamos aqui também a chegar ás formações já mais familiares para nós hoje em dia.

 

Esta formação tinha como objectivo ter 6 pessoas a defender e depois 6 pessoas a atacar, com os 2 médio-centro a fazerem as 2 tarefas. Com tão pouca gente no meio-campo, era necessário então que os defesas conseguissem não só roubar a bola como mantê-la na sua posse, passá-la e por vezes até iniciar ataques. Começou a dar-se importância às habilidades técnicas dos defesas.

 

Como se pode perceber, foi aqui que o passe começou a fazer parte do vocabulário dos defesas e não já só dos médios, apesar de neste sistema de jogo não haver preferência por passes curtos ou longos. O passe seria o que os jogadores pensassem fosse necessário em cada momento, havendo espaço para muita liberdade criativa por parte destes.

 

Figura 6 – Catennacio

 

Karl Kappan cria o Verrou, uma táctica que usava 4 defesas fixos, usando um sistema de marcação estrito de homem-a-homem com um homem no meio-campo que construía jogo apoiado por 2 alas.

 

Nereo Rocca, do Padova, pega no Verrou e cria o infame Catenaccio, a táctica que deu aos defesas italianos a fama da sua agressividade, com este sistema e modelo de jogo a ter a sua maior glória no Inter de Helenio Herrera. Desengane-se no entanto quem pensa que o Catenaccio de Helenio era um sistema defensivo. Sim, havia o tal “estacionamento do autocarro” mas com Helenio toda a gente que jogava no Grande Inter se arriscava a marcar, fossem atacantes ou defesas.

 

O Catenaccio do Inter dos anos ’60 consistia numa defesa de 4 em que 1 desses defesas seria o famoso líbero que ficaria encarregue não só de limpar bolas que passassem pelos outros 3 defesas mas também de fazer uma marcação dupla a um atacante quando fosse necessário. Os médios e atacantes estariam posicionados para lançar contra-ataques.

Mas, como disse anteriormente, este sistema e modelo de jogo não assentava só no princípio de defender e, aliás, essa era uma fama que Helenio sempre detestou. Foi com o Catenaccio que se criaram as sobreposições, o avanço dos alas absolutamente vertical para o (contra-)ataque. Os alas conseguiam marcar tantos golos como os atacantes ou médios.

 

E o que tem o passe a ver com isto? Bem, tem tudo, porque todo este modelo assentava numa coisa: passes rápidos e longos. A qualidade deste modelo de jogo (que trouxe 2 títulos da agora chamada Champions League, 3 campeonatos e 2 Taças Intercontinentais para o palmarés do Inter) dependia muito da consistência defensiva, sim, mas não menos do passe, e é por isso que muita gente olha para o Catenaccio de forma errada. Os outros que adoptaram (ou tentaram adoptar) esta táctica não conseguiram incutir essa filosofia do passe com sucesso, focando-se apenas na parte defensiva do Catenaccio, dando o mau nome e criando eles sim o “autocarro”.

 

Figura 7 – 4-3-3

 

Figura 8 – Johan Cruyff

Chegamos agora então ao 4-3-3 e a partir daqui entramos na porta do futebol que actualmente conhecemos. E por onde havíamos de começar com o 4-3-3, estando nós a falar do Passe, se não no Futebol Total de Rinus Michels, Johan Cruyff e Ștefan Kovács?

 

Penso que não será injusto dizer que o Futebol Total é o modelo de jogo que mais influência teve no futebol moderno (e Johan Cruyff a pessoa com mais impacto), mas será no entanto mais fácil definir o que não era o Futebol Total do que realmente era. O Barcelona, Bayern ou Manchester City de Pep Guardiola não eram/são Futebol Total. As equipas de Sarri não são de Futebol Total, nem as equipas de Bielsa. O Ajax de Petr Bosz não era de Futebol Total. Jogar ao meiinho não é Futebol Total. O Futebol Total talvez seja muito resumidamente definido como a ideia de que um jogador pode aparecer em qualquer lado a qualquer altura.

 

O Futebol Total assentava em 2 princípios basilares: a utilização do espaço e a fluidez de posições, só possível de aplicar com jogadores de topo, com uma grande entrega, trabalho de equipa e muita disciplina. Pela 1ª vez começou a falar-se de trocas de posição na vertical (ex: um médio ir para o lugar de um atacante e este a ir para o lugar do médio), sendo isto essencial para arrastar defesas para fora de posição, tornando a marcação homem-a-homem, até aí a que toda a gente utilizava, impossível.

Esta táctica, claro, levaria ao fim do Catenaccio.

 

A defender, a equipa teria de tornar o campo o mais pequeno possível, exercendo uma pressão frenética, com uma defesa muito subida; no ataque, a equipa teria de tornar o campo o maior possível, contando com a subida do libero para o meio-campo, passando de um 4-3-3 para um 3-4-3.

 

Assim sendo, a defesa começaria os ataques. A importância dos defesas saberem como e quando passar surge realmente com o Futebol Total, pois não interessa se eram laterais, líberos ou defesas centrais, terias de saber passar a bola e saber quando fazê-lo pois além de seres tu a começar os ataques, terias de saber contribuir para o jogo quando fosses chamado a fazê-lo. Linhas de passe nunca poderiam faltar e se isso significasse os defesas subirem mais que o seria esperado, então que fosse (obviamente com a equipa a ter cautela com os contra-ataques, pondo lá outros jogadores).

 

O Futebol Total era isto, era andar de um lado para o outro, baralhar toda a outra equipa, envolvendo toda a gente, abrindo e preenchendo espaços, correndo e passando, mantendo sempre a posse de bola até chegar à baliza e ao golo.

 

Para mim, como super adepto desta escola de pensamento, o Futebol Total é uma maravilha de se ver quando entro no Youtube e “engulo” vídeos daquele Ajax e daquela Holanda.

 

Figura 9 – Lionel Messi e Pep Guardiola

 

Mas se, para mim, o Futebol Total é uma maravilha de se ver, que diria eu do Tiki-Taka de Pep Guardiola? Epá, demais. Poderia fechar-me numa solitária durante 2 anos só a ver jogos daquele Barcelona… Vá, 1 ano e meio, 2 é um exagero!

Isto, provavelmente, devido à minha veia catalã… Digo “provavelmente” porque as pessoas com quem falava que não eram fãs do Barcelona não apreciavam muito o que viam por ali. E digo “veia catalã” não porque tenha família da região mas sempre, desde pequeno, fui fã do FC Barcelona, por isso ver Pep Guardiola surgir, aplicar aquele estilo de jogo num dos meus clubes favoritos, enquanto ainda fazia despoletar e potenciava o meu jogador favorito, Lionel Messi, e arrebanhava uns quantos troféus, foi perto de orgásmico.

 

Mas fora da opinião subjectiva e pessoal e voltando para o que é objectivo, foram precisos cerca de 40 anos para a conversa do Futebol Total voltar à ribalta, desta vez através de Pep Guardiola – pupilo de Johan Cruyff – e dos pés (e muita cabeça) dos seus jogadores no Barcelona.

Gostaria também de mencionar aqui que não nos podemos esquecer, no entanto, que Pep Guardiola não foi o único a “beber” dos ensinamentos de Michels, Cruyff e Kovács e a aplicá-los no futebol moderno que hoje acompanhamos. Em treinadores como Marcelo Bielsa, Maurizio Sarri, Peter Bosz e até no nosso Paulo Fonseca é notória a influência dessa filosofia de futebol dominante, móvel e de posse.

 

No entanto, claro, Guardiola tem sido o principal “herdeiro” dessa filosofia e muitos vêem no Tiki-Taka o sucessor natural do Futebol Total.

Dito isto, penso que se cai muito no erro de comparar as 2 como se fossem uma e a mesma coisa. Se por um lado é bastante visível a influência do Futebol Total no Tiki-Taka, há que saber distinguir estes 2 modelos de jogo, estando as principais diferenças – algumas subtis – na pressão, no movimento, na fluidez e, consequentemente, no passe.

 

A 1ª diferença será na pressão, nos momentos em que a equipa não tem bola. Se no Futebol Total havia uma pressão por parte de praticamente toda a equipa ao portador da bola, quase como um bando de gaivotas anárquico, no Tiki-Taka a pressão era feita mais localmente, apenas pelos 1 ou 2, no máximo 3 jogadores mais próximos.

A 2ª diferença, no movimento, será, porventura, a mais notória. Se no Futebol Total se dava muitíssimo ênfase ao movimento dos jogadores, no Tiki-Taka o foco principal estava no movimento não dos jogadores mas sim da bola. E é aqui que entra também a diferença na fluidez.

A diferença no nível de foco em cada um dos aspectos não quer dizer que no Tiki-Taka não houvesse fluidez de movimento de jogadores, sim, havia, muita, mas não ao mesmo nível, tal como no Futebol Total havia menos foco no movimento da bola.

Com Guardiola, a bola é que tinha/tem de correr, a bola é que tem de cansar os adversários. Os jogadores têm de se saber posicionar e fluir ao invés de fluir só por fluir.

Há uma espécie de troca entre os 2 modelos “dá cá um bocado mais movimento de bola e toma lá um bocado menos de fluidez” ou vice-versa.

Josep “Pep” Guardiola Sala tinha à sua disposição elementos tecnicamente muito evoluídos mas baixos em estatura ao contrário do que, na maioria, acontecia com Ajax e Holanda, e por isso era essencial haver triângulos, ou seja, haver sempre 2 opções válidas para passe para quem tem a bola. Aliás, é também por isso que o Tiki-Taka deixaria de existir e Guardiola teria de se adaptar no Bayern e, posteriormente, no Man City a outros modelos de jogo.

Mas então, é aqui que entra a diferença no passe entre Futebol Total e o Tiki-Taka.

 

Acho que não estou a dizer barbaridade nenhuma quando digo que o Tiki-Taka foi o expoente máximo do futebol de passe e posse no Futebol – aliás, o próprio nome, que Guardiola desdenha, vem precisamente desse “tu cá, tu lá”.

E este expoente só foi possível atingir não só por culpa dos 4 nomes que irei enumerar mas muito por culpa deles: Sergio Busquets, Xavi Hernandéz, Andrés Iniesta e, claro, Lionel Messi.

 

– Sergio Busquets seria, e continua a ser, bastante importante não exactamente pela sua fluidez mas precisamente pelo contrário, por ser um pêndulo atrás que permitia aos defesas centrais e a Xavi e Iniesta subirem e saírem de posição quando necessário. Busquets era uma espécie de guarda-costas, estando lá sempre para recolher um passe atrasado ou dar a bola aos criativos.

– Xavi era um gigante minúsculo, com uma visão perfeita que provavelmente poderia ter sido usado pela NASA para procurar vida alienígena; era só darem-lhe um telescópio que o homem iria encontrá-la com certeza. Xavi não só tratava de fazer parte de triângulos de passes curtos mais no lado direito do campo, com Daniel Alves, Busquets, Pedro e Messi, como por vezes aparecia no último terço a fazer um passe capaz de rasgar uma defesa de 100 homens ao meio.

– Não poderia faltar claro, Andrés Iniesta, que dava ao Tiki-Taka algo que muitas pessoas não associam a este modelo de jogo: drible. Iniesta tinha uma capacidade de drible altíssima, capaz de sair da mais difícil das situações com a bola no pé, mantendo sempre o controlo da bola. Era o senhor desenrasca quando o Barcelona se via apertado em zonas mais recuadas. Além disso, tal como Xavi no lado direito, focava-se em dar linhas de passe no lado esquerdo, com Abidal/Adriano, Busquets, David Villa e Messi e aparecia muitas vezes em zonas de finalização.

– Por fim, Lionel Andrés Messi Cuccittini, sobre quem não vale muito a pena alongar. Jogando Messi como Falso 9, Guardiola criou ali o elo principal que ligava o Futebol Total ao seu Tiki-Taka. Apesar de Iniesta e Xavi serem, sem dúvidas, as 2 rodas daquela máquina, Messi era o motor e o Tiki-Taka na sua grandiosidade só existiu devido não só à técnica, mas principalmente à inteligência de jogo de Messi: na leitura do jogo, no saber abrir espaços, do recuar para vir buscar jogo, no preencher espaços. Messi funcionava como um vértice para todos os triângulos que fossem precisos. Ia à direita, à esquerda, atrás, à frente, se fosse preciso até à defesa se o Barcelona tivesse em apertos. Era a encarnação do Futebol Total no meio do Tiki-Taka. E, claro, juntamente com David Villa e Pedro Rodríguez, era a principal lança apontada à baliza, chegando a encaixar 91 golos num só ano civil, em 2012.

 

Outros 2 elementos muito importantes para tudo isto resultar estão lá atrás. Os defesas centrais Piqué, que nas camadas jovens chegou a jogar como ponta-de-lança (e, aliás, por vezes até aparecia e continua a aparecer em zonas de finalização) e Mascherano, recuado por Guardiola para defesa-central, que se destacam pela sua capacidade de passe e construção (Mascherano recuado precisamente para melhorar a construção e passe a partir de trás), e o guarda-redes Victor Valdés que apesar de, confessamente, não ser o guarda-redes mais seguro do mundo entre os postes, tinha também muita habilidade com os pés, algo fundamental para Pep Guardiola, como se pôde ver posteriormente pela imensa confiança depositada em Manuel Neuer no Bayern Munich e na aquisição, a seu pedido, de Ederson para o Man City.

 

Ou seja, é clara a importância do passe curto, preciso, baixo, na construção das jogadas por parte do Barcelona de Guardiola (que depois ainda se prolongou, se bem que cada vez com menos disciplina, pelas eras de Tito Vilanova, Tata Martino e Luis Enrique), desde a defesa até ao último terço, onde depois Guardiola dá sempre total liberdade às suas equipas.

 

Figura 10 – Jürgen Klopp

 

Chegamos então ao último modelo de jogo que irei falar com detalhe. Acreditem, também já estou cansado… Aguentem só mais um pouco.

 

Jürgen Klopp trouxe ao futebol o actual grande modelo de jogo inovador: o Gegenpressing. Modelo este que já conseguiu encostar Pep Guardiola e o seu modelo às cordas várias vezes.

 

O Gegenpressing é a nova sensação do futebol mundial; passes tensos, drible em velocidade, ataque rápido e letal. Um estilo de jogo vertical perfeito para quem não gosta de estilos de jogo baseados em posse de bola. Até eu que, como disse antes, sou super adepto do futebol de posse, tenho de me render à espetacularidade deste modelo de jogo. Não o acho o melhor nem é o meu favorito, mas está sem dúvida no topo das listas.

 

Não é surpresa nenhuma que uma equipa está mais vulnerável para perder a bola quando acabou de a ganhar e é precisamente nisso que se foca o Gegenpressing de Klopp, apresentado no Dortmund e agora no Liverpool. Assim que a equipa adversária ganha a bola, é criada uma pressão ao portador e à zona muito forte e rápida e depois é ganhar a bola e lançar o passe tenso e vertical, muitas vezes não para o jogador destinatário mas sim para o espaço em frente, para chegar à baliza o mais rápido possível e marcar golo. O trabalho de passe profundo de Gündogan, Şahin e Gonzalo Castro era absolutamente essencial para depois Reus, Aubameyang e Mkhitaryan capitalizarem. O mesmo se aplicando agora com Wijnaldum e Henderson que têm em Salah, Mané e Firmino um trio que encaixa na perfeição para concluir a construção que estes efectuam.

 

Para isto ser possível, no entanto, é preciso ter uma equipa com alto índice de trabalho de equipa e muita, muita, muita energia. Por isso mesmo, muitas vezes, tanto o Dortmund como o Liverpool apresenta(va)m debilidades a partir dos 70 minutos, pois é impossível manter o ritmo avassalador durante todo jogo, especialmente em períodos com muitos jogos por semana ou a partir do último terço da época em que o cansaço e a fadiga se começam a notar.

 

De notar então que, neste modelo de jogo, não interessa muito a qualidade técnica do guarda-redes, dos defesas centrais ou mesmo dos atacantes. Só os médios têm de ter um excelente passe e um pensamento rápido.

Este tornou-se uma modelo de jogo muito difícil para Guardiola enfrentar porque as equipas de Guardiola normalmente estão muito subidas e, então, um passe longo, seja rasteiro ou por cima, mete em apuros a táctica de Pep.

 

Irão mais equipas apostar nesta táctica e neste modelo? Será o Gegenpress o que – como aconteceu com outras tácticas e modelos anteriormente – levará ao fim da filosofia de Cruyff e Guardiola, pelo menos durante uns bons anos? Veremos. Com certeza que irão surgir outras tácticas e modelos que contrariarão o Gegenpress, mas como serão? Irá aparecer alguém a influenciar-se talvez no Catenaccio, por exemplo, e reavivá-lo com umas modificações, como Guardiola, Bielsa e outros fizeram com o Futebol Total? Veremos.

 

Figura 11 – Uma bola de futebol com história

 

No entanto, seja com que formação/sistema de jogo, modelo de jogo, táctica ou filosofia se entre em jogo, é essencial nunca esquecer que o Futebol é muito mais que golos.

Algo que vemos como um simples passe deu para esta crónica ficar com cerca de 4600 palavras.

 

Acertar um passe curto pode ser a diferença que faz um adversário desposicionar-se ou irritar-se por já estar farto de perseguir a bola. Acertar um passe longo, tenso, pode ser a diferença entre ficar na cara do golo ou não.

Falhar um passe, qualquer que seja, pode ser a diferença entre a nossa equipa sofrer um contra-ataque perigoso ou, se for logo perto da nossa área, a equipa adversária ficar com uma oportunidade extraordinária para marcar.

 

O passe, tal como outras coisas, é um dos pilares fundamentais do que uma equipa faz em campo e, consequentemente, do que faz na História do Futebol.

 

Apreciemos e valorizemos o Futebol além do golo.

 

Obrigado.

Guilherme Percheiro

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