November 16, 2018

Primeiro que tudo, gostaria de agradecer a todos os leitores que leram e partilharam a minha 1ª crónica aqui no Entre-Linhas. O feedback foi muito positivo e não posso agradecer o suficiente por isso. Espero continuar a escrever coisas que tragam sentimentos positivos para a nossa paixão: o Futebol.

 

Dito isto e pondo termo já à lamechice, hoje venho-vos falar daquele bocejo ou sentimento de vazio que sentimos quando estamos a ver um jogo que está a ser uma autêntica seca.

Aqueles jogos em que nem uma equipa nem a outra estão a fazer algo de jeito e que a bola anda sempre ali, mastigada, em que há quase tantos remates à baliza quantos minutos de compensação. Sabem? Aqueles jogos em que as equipas jogam sem fio de jogo, que os jogadores parecem vir de uma qualquer 3ª liga de um país que descobriu o futebol há 3 dias, onde a própria bola parece que esvazia um pouco por estar quase a adormecer à espera que o jogo acabe. Sabem? Infelizmente, eu também.

 

 

Eu durante esses jogos

 

Mas comecemos então pelo princípio. E, para esse princípio, escolhi a definição de “beleza” segundo o algo conceituado e contemporâneo Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.

 

“ be·le·za |ê| 

(talvez do provençal belleza ou do italiano belleza)

substantivo feminino

1. Perfeição agradável à vista e que cativa o espírito; qualidade do que é belo.

2. Aquilo ou aquele que é belo, formoso. “

 

Nós humanos não andamos mais no meio da Natureza, a construir cabanas ou a morar dentro de grutas, a recolher bagas ou a caçar mamutes para sobreviver dia após dia. Deixámos o mundo natural para trás e criámos o nosso, fizemos os objectos que nos rodeiam, as coisas que vestimos, usamos e olhamos. 

 

No processo de fazer isso tudo anteriormente mencionado, muitas vezes negligenciámos, e negligenciamos, a BELEZA em favor do custo e/ou a funcionalidade em favor da eficiência.

Temos estações de metro, comboio, autocarro feias, prédios de empresas e serviços públicos todos esmagados uns nos outros, “shoppings” gigantescos; construímos filas e fileiras de blocos de cimento. Ou seja, temos blocos de cimento com dezenas e alguns com centenas de metros de altura sem expressão e padronizados uns ao lado dos outros, para onde ninguém faz questão de olhar e, muito menos, ir morar.

 

“E o que é que isso tem a ver com futebol?”, perguntará o/a caro/a leitor(a), com toda a razão, mas convido-o/a a acompanhar o meu raciocínio até ao fim.

 

Os humanos não gostam de monotonia.

 

Estudos que utilizaram “software” de rastreio ocular mostram que as pessoas continuam a concentrar-se em detalhes e ornamentos na arquitetura enquanto lhes passa completamente ao lado as paredes brancas e secantes dos edifícios. (https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/17508975.2013.807767)

E não só essas paredes e construções não são divertidas ou interessantes de se ver como elas nos fazem realmente infelizes. 

Experiências com sensores de pele demonstraram que olhar para fachadas enormes e aborrecidas deixa-nos entediados e desconfortáveis, e esse tipo de tédio tem sido associado ao aumento dos batimentos cardíacos e aos níveis de stress, sendo que o oposto parece também ser verdadeiro.

(https://aesthetics.univie.ac.at/research/art-emotion/)

 

Nas últimas décadas, mais e mais estudos descobriram que os ambientes que na verdade são esteticamente agradáveis ​​para nós podem melhorar o nosso bem-estar, o nosso comportamento, a nossa função cognitiva e o nosso humor.
Os nossos corpos e cérebros reagem mensurável e visivelmente a tudo o que nos rodeia.

A BELEZA, em particular, tem um impacto tão forte no nosso bem-estar que tornar as coisas úteis bonitas pode realmente torná-las melhores, mais eficazes.

 

Em 2017, um hospital examinou os factores de recuperação, por meio de observação e entrevistas com pacientes, e descobriu que a arte visual nas suas áreas de lazer deixava estes pacientes mais confortáveis ​​e felizes com a sua permanência em geral.

(https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5328392/)

 

Outro estudo analisou como os pacientes se recuperaram num hospital que tinha 2 enfermarias: uma muito velha e bastante feia e outra recém-remodelada.

Para surpresa destes pesquisadores, os pacientes que permaneceram no novo ambiente, renovado, precisaram de menos medicação para a dor e tiveram alta, em média, 2 dias antes dos pacientes que estavam a recuperar na enfermaria antiga.

Um ambiente mais bonito fazia com que eles se sentissem melhor fisicamente.

(http://www.wales.nhs.uk/sites3/documents/254/ArchHealthEnv.pdf)

 

E – para finalizar – outro estudo, que analisou os principais factores que influenciam a felicidade dos adultos, revelou um resultado inesperado: além de coisas como boa saúde e uma vida familiar harmoniosa, a nossa felicidade individual é afectada por quão bonita todos nós achamos a cidade, vila, aldeia, bairro em que vivemos; o nosso redor, o nosso ambiente, o sítio a que chamamos casa.

A BELEZA do meio onde estamos inseridos marcou mais pontos do que a limpeza ou até a segurança.

(http://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/0020764017744582)

 

Procura-se cor

 

Agora, caro/a leitor(a), rebobinemos a cassete e voltemos ao Futebol.

 

Lembro-me perfeitamente há uns anos ser dia de ‘El Clásico’ em Espanha e depois, quando esse jogo acabasse, começaria o Derby da 2ª Circular em Portugal.

Ora, jogando Barcelona e Benfica nesse dia, as equipas que apoio nos respectivos países e pelas quais tenho grande afinidade, como de resto mencionei na minha crónica anterior, a minha pessoa estava bastante contente, era um belo Sábado… ou talvez Domingo, já não me lembro correctamente. Sei que era fim-de-semana!

 

E assim foi: começa o ‘El Clásico’; recordo-me de ter sido um excelente jogo, intenso como de costume, já com CR7 e Messi nas respectivas equipas. Infelizmente, já não me recordo do resultado. 

Bem, findado esse jogo, entusiasmado, mudo de canal para ver o Benfica enfrentar o eterno rival Sporting e…

… que seca de jogo … que martírio era ver aquilo.

 

Caros leitores, não consegui ver aquele jogo.

Passados 10/15 minutos, parei de ver e voltei para o meu computador para ir jogar ‘Football Manager’ e barafustar tal como ensinar aos meus jogadores do Benfica, programados em C++, como é que se joga à bola.

 

Poderão dizer, com certa razão, que é injusto comparar a capacidade dos jogadores do Real Madrid e Barcelona com os do Sporting e Benfica, e isso é muito verdade, mas o ponto onde quero chegar com este exemplo e com toda a retórica anterior é: seja equipa grande, média ou pequena, é importante para o adepto de Futebol e para o ser humano, intrinsecamente, comprovado por vários estudos (como de resto demonstrei acima), haver BELEZA no que vimos, haver BELEZA que depois nos provoca emoções positivas.

 

É essencial para nós haver BELEZA no jogo, no nosso jogo, no jogo de todos nós.

 

É essencial o Futebol ser um jogo para o espetáculo, para o adepto, para o ser humano, mais do que para o resultado ou – como está em voga no Futebol moderno – para o dinheiro.

 

Sejamos nós de uma equipa chamada grande ou pequena, jogue-se à bola!

 

Há que respeitar o espectador, quem paga os ordenados de jogadores, staff, administrações e outras contas correntes e fixas, através das quotas de sócio, das camisolas, cachecóis e outras roupas e acessórios oficiais comprados, através dos bilhetes comprados para ir ver jogos em casa e fora. Espectadores que não só vão ao estádio como muitos outros compram canais desportivos que pagaram aos clubes pelos seus direitos de transmissão. Espectadores que gastam centenas de euros em gasolina. Espectadores que muitos deles depositam emoções fortes no seu clube, onde a vitória ou derrota podem tornar um dia belíssimo ou péssimo no inverso. Espectadores que trocam tempo para estar com mulher, marido, filhos e/ou pais para ir ver os jogos. Espectadores, especialmente os mais velhos, que alguns deles deram muito ao seu clube e fazem parte da História desse mesmo.

 

BELEZA, claro, é uma coisa subjectiva, todos nós temos as nossas preferências, todos nós temos coisas (e até pessoas) que nos parecem lindas e para outros são completamente horríveis, no entanto há coisas que, quer se queira quer não, atraem e captivam todos os nosso cérebros (vá, 99,99% de nós, não vá alguém sentir-se ofendido nesta época em que vivemos), como a simetria.

 

No futebol, claro, é difícil haver simetria, mas há outra coisa que penso ser universal e essencial no que toca a captivar-nos: intensidade. 

 

CR7 é dos jogadores mais intensos a jogar

 

Quer sejamos fãs da escola de pensamento de Guardiola ou de Klopp – neste momento as 2 maiores filosofias antagonistas em destaque – penso que a intensidade é a razão para estas 2 escolas (tal como outras no passado) terem tantos adeptos, porque mesmo que se prefira uma filosofia e um modelo de jogo ao outro, é rara a pessoa que não adora ver o Manchester City e o Liverpool a jogar actualmente, mesmo até que se seja fã ou adepto do Manchester United ou do Everton.

Quando jogam um contra o outro então… “top”. São jogaços garantidos.

 

No outro espectro do sistema temos treinadores como Simeone ou Mourinho que adoptam modelos de jogo pouco intensos, cuidadosos, resultadistas e, escusado será dizer, que eu desgosto. Na verdade, arrisco-me a dizer, penso ser factual que não são estilos que têm muitos adeptos no universo futebolístico.

Isto, no entanto, não quer dizer que não tenham mérito. Tanto Simeone como Mourinho são treinadores que merecem o maior respeito, são treinadores vencedores, com um palmarés de fazer invejar muitos. Nada disso está em causa.

 

A verdade é que se disserem que está a dar um Man City vs Liverpool ou um Atlético Madrid vs Man Utd … não me parece que seja difícil escolher que jogo vai ter mais espectadores, isto tudo sendo 4 equipas que não têm tido propriamente muito sucesso – pelo menos nos últimos anos – na Europa.

 

Mas, aliás, nem é preciso ir lá fora.

O Benfica com Rui Vitória tem tido um futebol muitas vezes pouco vistoso, o Sporting de Peseiro igual, o Porto de Sérgio Conceição também não é propriamente o pináculo de “espetáculo”.

Sinceramente, dos chamados “3 Grandes”, conheço poucos adeptos satisfeitos, entusiasmados e captivados pela maneira de jogar da sua equipa. E, para piorar, como a maior parte das equipas mais pequenas em Portugal pouco se arriscam a atacar contra esses 3, os jogos são, na maior parte das vezes, aborrecidos.

“Futebol”, nos jogos do Benfica, Sporting e Porto é coisa onde não há muito por onde pegar.

 

O Braga, por exemplo, com Abel, por outro lado, tem sido alvo de bastantes elogios pela forma como jogam, mesmo que o (in)sucesso não se coadune. Além deste Braga, poderia mencionar o futebol esteticamente atraente do Benfica e Sporting com Jorge Jesus, o futebol do Sporting com Leonardo Jardim na sua curta passagem pelo Sporting (que depois repetiu no Mónaco), o Porto de Villas-Boas, o Braga de 2009/10 com Domingos Paciência ou posteriormente com Paulo Fonseca, o Vitória de Pedro Martins durante um certo período, etc…

Tudo excelentes exemplos do futebol bonito que se praticou em Portugal e que, quase unanimemente, mereciam e ainda merecem elogios.

 

E o que diferencia estes segundos exemplos dos primeiros? A intensidade, precisamente. O futebol positivo, seja de posse ou mais directo. Davam-nos alegria de ver; mesmo que a equipa perdesse – que era raro acontecer – ficava aquele pensamento “ao menos jogámos bem, para a vitória”.

 

Jogadores como Messi, Cristiano Ronaldo, Neymar, Mbappé, Griezmann ou Hazard, ou mesmo em Portugal jogadores que estão cá ou que passaram recentemente como Brahimi, Nélson Semedo, Nani, Quaresma, Dí Maria, Ramires, Hulk, Liedson ou mesmo Raphinha são/jogadores que quase unanimemente merecem elogios por parte dos adeptos de futebol em Portugal e lá fora, sejam de que clube for, porque são jogadores que além de serem bons jogadores, jogam/jogavam com intensidade e nos captiva(va)m.

 

E é isto, caros leitores…

 

Nós precisamos de BELEZA no meio onde vivemos, nos prédios, nos jardins, dentro da nossa casa, nos nossos quartos e salas, nos hospitais onde eventualmente todos pomos os pés, no nosso trabalho.

À medida que nos espalhámos pelo planeta e o nosso número cresceu, moldámos um ambiente completamente criado pelo Homem, sempre em busca da utopia, de tornar tudo no melhor e mais agradável para nós mas sendo o mais eficaz possível, sendo que quando é para escolher entre o agradável e o eficaz, o mundo tem escolhido o eficaz.

A verdade é que nunca conseguiremos alcançar a satisfação total. Vivemos num mundo colorido por luzes e néons mas por trás estão blocos de cimento, secantes, produzidos em massa. Apesar disso, continuamos a tentar, mesmo que saibamos à partida que é uma guerra perdida.

 

Mas, apesar de tudo isso, ao fim do dia, mesmo que essa guerra nunca seja ganha, mesmo que o dia tenha sido péssimo, nós só pedimos e ficamos felizes se, naqueles 90 minutos em que vamos ao estádio ou ligamos a televisão, a nossa equipa, à qual dedicamos dinheiro, tempo e sobretudo emoções e sentimentos, nos der BELEZA, nos der um colorido, nos der apreço, nos diga “estamos a dar tudo por vocês porque vocês importam para nós”.

 

A importância daqueles 90 minutos

 

Eu não quero com esta crónica crucificar treinadores resultadistas ou pessoas que pensam “o importante é ganhar”, isto é apenas a minha opinião, e obviamente que todos nós gostamos de ganhar, mas penso que é possível aliar futebol positivo, BELEZA, com conquistas, como já foi provado ao longo dos anos por várias equipas, treinadores e jogadores e por isso o meu objectivo com esta crónica é simplesmente realçar um lado do futebol, não necessariamente rebaixando o outro.

 

Não quer dizer que pontualmente não tenhamos de ser mais pragmáticos, mas fazer disso a regra… penso que mata o futebol, a sua magia, o que nos agarra e nos faz sofrer com gosto. Faz-nos penar, sofrer sem gosto, roer as unhas e discutir à beira de uma ataque de nervos à espera que apareça um golinho e ganhemos por 1-0 ou 2-1 e finalmente aquele jogo acabe.

 

Eu acho que ver futebol demasiado calculista e pragmático é ver futebol à espera que o jogo acabe e eu, que sou apenas um gajo adepto de futebol comum, quero ver jogos com a esperança que durem para sempre.

 

Obrigado.

 

Guilherme Percheiro

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