July 16, 2019

No primeiro artigo que tive a oportunidade de escrever neste espaço (ver AQUI), abordei a questão controversa da alteração do modelo competitivo nacional, de modo a aumentar a qualidade geral dos clubes portugueses, bem como do jogo em si. Concorde-se ou não com a visão partilhada, a verdade é que independentemente do modelo a seguir, qualquer opção deverá sempre ser acompanhada do mais importante: a mudança de mentalidade. Sem este fator de natureza fulcral, qualquer alteração acabará por ser estéril.

Não será novidade nenhuma se disser que o futebol português, nos dias que correm, encontra-se num absoluto lodo moral e intelectual. Somos constantemente bombardeados com programas de TV de qualidade duvidosa, nos quais despontam figuras que roçam o “zero” de conhecimento do jogo em si, saturando a plateia com análises exaustivas de lances putativos de fora jogo, amostragens de cartões, amarelos, vermelhos, verdes ou azuis, os e-Toupeiras desta vida, os vouchers, os cashballs e os demais Apitos Dourados que pululam neste pântano a que chamam “futebol português”. E do jogo? Quem fala do jogo?

Há uns dias atrás, ao ouvir um podcast do Football Daily da BBC Radio 5, dei por mim a pensar que estamos a anos-luz da cultura britânica (e não só) no que à abordagem ao jogo diz respeito. Em primeiro lugar, porque o painel de comentadores é composto quase na íntegra por jogadores de futebol consagrados em terras de Sua Majestade – Ian Wright à cabeça (sim, o pai do Bradley e do Shaun) – com conhecimento direto do que é o futebol jogado, e das vicissitudes que o acompanham, seja no relvado ou no balneário. Depois, porque em quase todos os podcasts, podemos contar com a participação de um jogador da Premier League, que é entrevistado num jeito informal sobre o próximo jogo da sua equipa, e da forma como o jogo será abordado. E é aqui que se começa desde logo a notar um fosso entre as duas realidades.

Na semana que precedeu o embate entre o Crystal Palace e o Manchester City, no Etihad (que os londrinos acabaram por ganhar 3-2), o convidado foi o médio centro sérvio do Palace, Luka Milivojevic. Para além de se expressar num inglês perfeito (não esquecer que por cá, jogadores como Salvio, Corona, Herrera ou Coates não conseguem falar sequer um português aceitável, não obstante a sua língua natal ser o castelhano), o capitão do Crystal Palace não se cingiu aos lugares comuns típicos da gíria futebolística, como “vamos entrar para ganhar”, “temos trabalhado muito”, “respeitamos muito o adversário”, e por aí em diante, como é apanágio da esmagadora maioria dos jogadores e treinadores da nossa Liga.

Pelo contrário, o sérvio começou por agradecer o privilégio que era poder estar a falar com o Ian Wright (por cá, duvido que acontecesse), e começou a fazer uma análise detalhada da forma como o City joga em determinados jogos, nomeadamente, quando o adversário é teoricamente mais fraco, como no caso em concreto. Por outro lado, e em complemento com a perfeita análise técnico-tática que fez ao adversário, fê-lo de igual forma relativamente à sua equipa, e perdeu ainda uns minutos e explicar como é que um jogador de um underdog encara emocionalmente estes jogos contra um tubarão do calibre dos citizens. Falou de árbitros para justificar a má posição do Palace na Premier League? Não. Falou de azar? Não. Falou de conspirações maquiavélicas para tramar a sua equipa? Não. Falou de futebol. Só de futebol. É tão simples e ao mesmo tempo tão complicado desapegarmo-nos desta pátina de constante suspeição e conspiração que grassa no futebol português.

Só assim poderemos começar a pensar em mudar os paradigmas vigentes no nosso futebol, através de uma mudança radical de mentalidade, que no entanto terá forçosamente de ser gradual. É o que desejo, do ponto de vista desportivo, para 2019.


Um bom ano a todos os leitores do Entrelinhas!

Miguel Pinho

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