November 17, 2019

O Benfica perdeu a Final da Liga Europa. Pela segunda vez CONSECUTIVA. Sim, leram bem, CONSECUTIVA. O que quer dizer que, durante dois anos, jogaram a um nível que lhes permitiu lá chegar. Tão simples quanto isso. E quem disser ou achar que é uma sub-Liga dos Campeões, que é fácil, que não tem nível ou outra idiotice do género, que se lembrem que a Final do ano passado foi contra o Chelsea, que tinha ganho a Champions no ano precedente. Que nas meias-finais o Benfica LIMPOU a Juventus, grande favorito, impedindo-a de jogar a Final em casa, no seu estádio. Ou tente simplesmente chegar à final “fácil”. Duas vezes em dois anos.

 

Não obstante o facto de eu ser Portista convicto, não posso deixar de reconhecer aqui duas  verdades que, doa a quem doer, são as dos últimos anos no futebol português:

 

O Benfica está a fazer bem ao futebol português. Duas finais europeias consecutivas para uma equipa portuguesa, é algo difícil nos tempos que correm. E o Benfica conseguiu-o. Isto só faz bem ao ranking de Portugal na FIFA. Quanto mais equipas o país conseguir introduzir nas competições europeias, mais rápido estas elevarão o nível de jogo, e todo o campeonato beneficiará desta melhoria. Enquanto forem só as equipas que já têm bom nível europeu a lá ir, o campeonato continuará a ser bicéfalo. O Benfica e o Porto são clientes habituais da Liga Milionária, estão mais do que habituados a gerir a pressão dessa competição, a gerir os seus efectivos para estar pronto pra batalhar em duas, três frentes em simultâneo. Não é algo que se invente, não é algo que se compre. É preciso passar por isso, é preciso ir com regularidade à Europa, é preciso perder, empatar, ganhar, dentro e fora, ganhar estaleca, olhar para os outros adversários nos olhos, sem medo. Na CL e na EL tudo vai mais rápido, tudo está sob o fogo dos holofotes, todos querem dar o melhor de si. Se Portugal aumentar nos próximos anos o número de participantes nestas competições, devê-lo-á em grande parte a estas duas finais do Benfica.

 

– No campeonato nacional, o Benfica foi superior ao Porto, não só esta temporada, mas as duas anteriores. O maior adversário do Benfica, e o que fez com que tenha acabado os três últimos exercícios com um título nacional em vez de três, chama-se Benfica. Não tiremos mérito ao meu Porto, que passou uma temporada e meia sem sofrer derrotas no campeonato, e que se debateu até ao fim das duas temporadas passadas que acabou por ganhar. Mostrámos raça e qualidade, e onde faltou orientação por falta de treinador à altura, houve garra por parte dos jogadores para aguentar a casa. Mas estávamos a avançar no vermelho há km demais, e esta temporada viu-se os limites de uma política imediatista no que diz respeito a treinadores (usámos 3 este ano); com isto, o Benfica sagrou-se muito antes da derradeira jornada no Dragão. Nos anos anteriores, o Benfica parecia paralisado por certos desafios. Fazia jogos excelentes, demonstrações em campo, mas quando era chegada a hora de finalizar, de matar os jogos, havia sempre um freio, uma hesitação, como se o acontecimento fosse grande demais. A “maldição” dos 92 minutos da temporada passada é a melhor ilustração. O português não resiste a uma ocasião de entoar o seu Fado…

 

Já esta temporada, vimos um Benfica diferente. Descomplexado, voluntário, conquistador. Lançou-se de cabeça, e apesar de alguns contratempos (a eliminação da Liga dos Campeões), conseguiu dar a volta, e chegar às meias-finais da Liga Europa com o título de campeão nacional no bolso. Levado por esta euforia colectiva, o Benfica fez melhor do que resistir ao candidato natural, a Juve. Derrotou-o em casa e segurou o resultado fora, acedendo por mérito próprio a uma Final que lhe escapou o ano anterior. Já com a experiência, contava com outro resultado, sobretudo porque o Sevilha era, no papel, uma equipa menos perigosa do que a Juventus, do que o Chelsea triunfante do ano anterior.

 

No jogo, o Benfica foi mais ofensivo sem qualquer sombra de dúvidas. Sobretudo na segunda parte, era notável o esforço das águias, e mais do que uma vez a defesa do Sevilha teve que ser compacta e sortuda para evitar um desfecho penoso para eles. O Benfica criou perigo, mas foi desajeitado, longe do que esperavam os adeptos, que nas últimas semanas se deliciaram com uma equipa prolífica no ataque. O Benfica jogou a primeira parte hesitante, começou a soltar-se ao minuto 40, e bombardeou todo o segundo período. Mas já era tarde. O Sevilha, consciente da superioridade do adversário, escolheu defender. Se tivessem sofrido um golo nos primeiros minutos, teriam sido obrigados a descobrir-se. Tal não aconteceu, e eles foram reforçando a confiança nos seus defesas centrais, no seu meio campo. O Prolongamento foi jogado já sem pernas de parte e de outra, e os penaltis não se comentam, lamentam-se. É inútil culpar o Cardozo, ou quem quer que seja. As vitórias são colectivas, as derrotas também. Faltou ao Benfica a garra que mostrou em campo noutras ocasiões esta temporada. Faltou ao Benfica o cálculo que caracterizou os seus adversários nas duas finais europeias que jogou. Faltou ao Benfica um golo “à la Chelsea”, saído do nada e contra a lógica do jogo. E por irónico que seja, se calhar faltou ao Benfica… o Beto. Mas não faltou entrega. Não faltou empenho. Não faltou motivação. Deixemos de lado as superstições pueris, o Béla Gutmann e as suas maldições: Jorge Jesus içou os seus até ao pequeno topo da Europa, agora tem que abdicar de “uma certa ideia do jogo” e fazer o necessário para ganhar. O nome da equipa que jogou o melhor futebol nem sempre é o nome gravado na taça…

Béla Guttmann, com os dois únicos troféus europeus do Benfica.

Béla Guttmann, com os dois únicos troféus europeus do Benfica.

 

Arestas serão limadas para a próxima temporada. A experiência valerá para o Benfica, como para todos os clubes portugueses com pretensões de algum dia atingir um tal patamar. E se nada sabemos hoje sobre o futuro dos jogadores ou do treinador, uma coisa sabemos: o campeonato português está lançado. Em 2014/15 teremos competição. O actual campeão, o campeão deposto e o delfim ambicioso estão formatados para dar à Liga Portuguesa temporadas de que os adeptos se lembrarão. Porque no fim, pouco importa de que clube sejamos, quando temos um clube com um fim de temporada com esta qualidade, ganha o Futebol Português.

 

Ricardo Glenn Baptista

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